EPITÁFIO
Sempre quis
um endereço fixo.
Homens são famosos por sua fantástica cegueira seletiva. Tateiam os produtos na despensa e na geladeira como baratas bêbadas de Mortein. Ansiosos, desesperam-se em três segundos e gritam por indicações:
— Amoooor! Cadê a massa?
— Amooor! Cadê a Coca?
— Onde você colocou o salgadinho?
A gente aponta os itens dizendo coisas como: está no armário, está na terceira gaveta, está na prateleira dos frios. E a resposta, invariavelmente, é assim:
— Onde está que não estou vendo?
— Não acho!
— Não está aqui!
— Cadê?
Desligamos o telefone, levantamos e entregamos o troço que, em geral, está na frente deles.
Pois é, homem tem fama de ser distraído. Não apenas quando passa futebol na televisão e ele não escuta. Homem mesmo perde a carteira, esquece a chave, extravia a identidade e nunca sabe o CEP de seu próprio endereço.
Homem mesmo não é o caso do Bitols. Esse é fora da órbita. Ele sabe o mapa da casa muito melhor do que eu. Ao contrário, ele inverte a sabedoria doméstica só para não ficar por baixo: guarda tudo bem rápido que é para eu posar de tonta. E o pior: avança em meus pertences e distribui minhas roupas no armário em um sistema secreto de organização que eu já desisti de decifrar.
Mas, ok: os suprimentos eu aguento, as roupas eu tolero, as pastas de documentos eu suspiro. Afinal, ainda me sobra o corpo dele para me anteceder.
Ninguém conhece o organismo de Bitols como eu. Nem ele. Eu sei quando a barriga está inchada, quando dormiu bem, quando está cansado. Claro que não sou perfeita, mas minha percepção está cada vez melhor e dependo apenas do tempo para ficar mais apurada.
Eu vejo e aviso: está com dor, está irritado, está com rosácea. Aliás, a pele dele é meu guia mais fiel. As irritações, o pandemônio e o estresse: tudo fica registrado nas manchas, nos rushes e nas pápulas.
De vez em quando, uma coisinha ou outra me passa despercebida. Aí, pergunto ao dono:
— Bitols, que roxo é esse no teu braço?
— Ãhn? Que roxo?
— Esse aqui ó. É uma equimose.
— Não vejo... Onde?
— Essa marca redonda no braço.
— Não vi.
— Aqui embaixo, olha: parece uma mordida...
— Ah, esse roxo... Ah... Pois é. Eu bati pegando mala no avião.
Ahan, sei.
Bateu.
Pegando mala.
Nesses horas, o que eu não daria por uma cegueira seletiva.

Cinthya, uou!!
ResponderExcluirAdorei o texto.
Beijo
Ah, que saudade que eu estava de rir aqui!
ResponderExcluirFeliz 2012!!!
Senti muita falta dos teus escritos.
ResponderExcluirQue bom que tu voltou...
Como sempre, muito bom...!
Feliz 2012. fica bem!
Ler o Matando é um sacode a poeira, uma volta pelo jardim, um assalto de geladeira na madrugada. Sempre muito bom, sempre bom demais.
ResponderExcluirAfinal, vcs são casados ainda? Isso não fica claro, a impressão é que vc está relatando fatos do passado...
ResponderExcluirAmeeeei!!
ResponderExcluirMuitas verdades precisam ser ditas mesmo!! O meu marido nunca sabe o cep e SEEEMPRE me solicita..háháhá!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirAdoro seus assassina-atos!...
Beijos =)
Ah menina, a cegueira seletiva evita muitos danos, hahaha! A|mei o texto!
ResponderExcluirBeijos
Sabe do que eu mais gosto nos seus textos, além de serem extremamente bem escritos? Adoro ler que as loucuras que nós mulheres temos, essa pulga atrás da orelha que nunca sabemos se é real ou fruto da nossa imaginação não é só nossa! Já li todos os teus posts em um fôlego só e é uma delícia! Continua postando sempre... Adoraria ter cegueira seletiva.
ResponderExcluirBeijos,
Querida(o) amiga(o). Estou fazendo uma Campanha de doações pra ajudar os jovens rapazes que estão internados no Centro de Recuperação de Dependentes Químicos onde meu filho está interno também.Lá tem jovens que chegam só com a roupa do corpo,abandonados pela família. Eles precisam de tudo:roupas masculinas,calçados,sabonetes,toalhas,pasta de dentes,escovas de dentes,de um freezer, Roupas de cama,alimentos. O centro de recuperação sobrevive de doações,são mais de 300 homens internos.Eles merecem uma chance. Quem puder me ajudar pode doar qualquer quantia no Banco do Brasil agência 1257-2 Conta 32882-0
ResponderExcluirPÔ, tÔ "chocado", descobrindo hoje esses escritos... como se não bastassem os Carpinejares do Fabrício, há uma Cínthya, tão brilhante quanto. Li tudinho e lavou a alma, Cínthya! Aqui está um neoadmirador teu, é bem verdade que dele também, há mais tempo, mas se dia desses eu encontrá-los por aí, como já aconteceu uma vez na fila para uma exposição que tinha pinturas do Van-Gogh no MARGS - e não cheguei pra não ser 'mais um chatinho declarando sua admiração' num momento inadequado, poderá mostrar ao "Bitols" que não é só ele que tem 'tietes' - rsssss , brincadeira, muito respeito antes de tudo... mas que o teu texto sugere uma mulher sensacional por trás dos teclados, ah, isso com certeza! Apaixonei-me, agora pelo casal. Bacana demais.
ResponderExcluir"É uma equimose!" haiuhiuahuaia... adoro esse jeito perita q vc tem. Sempre de olho em tudo. =]
ResponderExcluirA dependência...
ResponderExcluirA morte...
tudo carência, tudo carência...
O vazio...
A falta da busca, afinal
reticencias...
TÔ assistindo agora no Jô a entrevista. Caramba! A criatividade não tem mesmo limites. kkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirParabéns!
Ola Cyntia.
ResponderExcluirVi sua entrevista no Jô,quase morri de rir...Parabéns!!!Vc fala muito bem,tem uma imaginação nossa...Então fiquei muito curiosa p/ conhecer seu blog.Quando li essa materia nossa achei que era só meu marido rsrsrsr.... realmente é verdade...as vezes as coisas estão na frente dos olhos e mão veem...e oq me deixa mais irritada é quando ele vai tomar banho e esquece de tudo!!Amor pega para mim a toalha?!E eu deitada me esquentado,ter que levantar!!!!Que raiva...Adorei seu blog,de vez enquando vou entrar aqui para postar algo..abraço e bom findi
Putz... Será que sou homem e não sei? rs....
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