sábado, 25 de dezembro de 2010

Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar.



EPITÁFIO
O amor é um crime 
que nunca fica prescrito*.

*@carpinejar


Eu acredito em amor defeituoso, corcunda de Notre-Dame, cheio de calabouços e górgonas, além das esmeraldas; de estrada tortuosa, de vexames e chuva de granizo. Amor de verdade, pra mim, tem que ter geografia completa, cartografia generosa e acidentes de percurso. O modo como percorremos é que nos define.

Mulher perdoa, mas não esquece. Homem esquece antes mesmo de ser perdoado. Acho que querem nos influenciar.

Mulher tem dessas coisas. Luta como louca pra deixar a lembrança afogada no calendário; amordaça a raiva daquilo que ele disse pra seguir adiante; parafusa o caixão prendendo o zumbi. Mas o fundo é falso e se remexe. O que não mata, depois enche o saco.

Já o homem, sem nenhum esforço, sem uma gotinha de suor, apressa a amnésia. Não gosta, apaga. Simples assim.

Gorda auto-indulgência que eles se oferecem. Pelo menos o Bitols.

Quando começamos a namorar, ele recém estava saindo de casa. Eu caí de paraquedas no meio da confusão mental, em plena epilepsia do divórcio. Meti a colher para segurar sua língua. Ergui meus bálsamos de apaixonada e fui tratando de engolir os achaques, as crises, as maledicências. Haja digestão:

- Foi perereca, rã, salamandra, sapo-boi, sapo verde, marrom, papudo, vermelho, da indonésia.

Fiz de um tudo para ajudar durante a tormenta, crente na bonança. Ele mesmo me alertou que consistia em fase trêmula, exigia cuidados extras, caprichos de convalescente. Prometeu que me levaria no colo quando chegasse minha vez de precisar.

Vantagem das fases críticas é que estaremos mais juntos depois. No amor, as contrariedades viram remuneração. Persistência é a moeda corrente da relação.

Décadas mais tarde, chegamos ao dia de hoje.

Era natal, estávamos no banheiro, eu lá esculpindo o Ho-Ho-Ho na cabeça de Bitols. Zummmmmmm entre os cabelinhos. Daí, o ruído foi ficando bêbado.

- Carregou o barbeador?

- Sim, ontem, toda a tarde.

- Ué? Acho que a bateria está ficando velha...

- Ah, nem diga! Adoro esse aparelho, um dos melhores presentes que me deu. E foi dos primeiros, né?

- Claro! Você dizia que ia fazer a barba na tua ex-casa quando fosse buscar teu filho, que não tinha barbeador em Porto Alegre, que o teu era 220V, que eu não me preocupasse, que o que é que tinha?, você poderia fazer a barba quando fosse lá, que limparia tudo, qual era o problema?

- Imagina. Nunca disse isso.

- Não se lembra?

- Não.

E ele nem lembrava.




* Obrigada Luizão, pela adorável sugestão de morte.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Feliz Aniversário

EPITÁFIO
Amava Wim Wenders e o U2.
Enfim, Tom-Tom.




Aniversário de namoro é comoção. Dá uma ligadura no peito, aquela bobeira por estar junto mais um ano. Chega o dia e, às vezes, a gente só nota quando assina o cheque. E se apercebe sorrindo porque dá tempo de surpreender a pessoa que amamos ainda - e cada vez mais.

Foi bem assim na manhã daquele dia: preenchi a primeira receita e completei a data me dando conta de que era a especial.

Saí no intervalo do meio-dia e preparei presentinhos significativos, cada um com o respectivo bilhetinho.

Não é que estivesse desprevenida – mas é que nossa expectativa de comemorar compreendia uma viagem que se seguiria um par de dias dali, um tipo de lua de mel ou equivalente.

O que me deu foi um ataque de nostalgia, assim, no dia específico em que a gente se conheceu: uma crise romântica. Não quis deixar o calendário à toa. Escrevi uns torpedos melosos, convidando para reencontro no bar em que nos vimos pela primeira vez; coisa rápida. Ele topou e, mais que isso, reservou a mesa em que ficamos, a mesma mesa.

Pensei em ir com a aquela mesma roupa, mas mudei de ideia e me arrumei de arrasar. De arrasar e arrastar – porque coloquei um vestido curto, preto, com fenestras e uma meia arrastão com saltos altíssimos.

Ah, ele adorou. Bitols festeja de me ver com exuberâncias. É meu fã número um. Dá gosto de se por em banquete para ele se fartar. Não economiza o desejo que tem e me honra com olhos de ímã.

Pedimos espumante, uma tacinha, que mal tem, mais não posso, amanhã trabalho cedo.

Beliscamos uma coisinha, fizemos a troca de presentes. Ele, um escândalo, com linduras trazidas de Minas Gerais, roupas deslumbrantes, espetaculares mesmo. Puro luxo.

Bem, vamos acabar cedo, já valeu o momento, tão bonito que a gente voltou aqui hoje, não é mesmo, é sim, adorei os presentes, sabe, enfim, vou ali pagar a conta.

Como Bitols demorasse muito, fui atrás. Aí, como relâmpago dos demônios:

- A avacalhação em massa.

Uma anã frenética loira passou por mim se rindo toda e alcançou, meio que inadvertidamente, um papelote ao Bitols:

- Tá aqui o que você pediu. - disse a miniatura do Atchim.

Bitols, por sua vez, guardou o paraquedas branco de guardanapo no bolso de trás da calça – rápido como quem rouba.

E a micro-pessoa se esvaiu de nós aos trancos em direção ao banheiro, abriu a porta de vai-e-vem rindo alto e sumiu – provavelmente latrina adentro onde deve ter ido se reunir com os seus.

Fiquei eu parada olhando em choque de como-assim-o-que-significa-isso e Bitols, branco das neves, algo como panicando, saiu-se dizendo que não era isso, isso o quê?, o que você está pensando, que a moça pediu pra que eu fosse na mesa delas, que faziam um blog, que queriam que eu escrevesse qualquer coisa, aí eu pedi o contato.

Ahan. Não era uma cantada, imagina!, era uma consultoria literária.

Diante de minha cara de tacho do tipo JUSTO-HOJE, em letras garrafais, ele resolve abrir a chonga e lá estava o endereço, algo equivalente a http://confraria_das_separadas.blogdosinfernos.com.

Não tem saída, não. Só matando.

PS. Gracias, Jacelena Dourado, pela morte sugerida. Tão romântica.

domingo, 31 de outubro de 2010

Mão Santa

EPITÁFIO
 Nunca tomou ácido para viajar,
mas foi bem mais longe.




Tenho amigas que reclamam de seus namorados. Afirmam que são toscos, descuidados, não entendem nada de mulher. Resumindo: uns machões sem tato.

Algumas contam com esmiuçados detalhes os momentos de distração de seus adoráveis patetas. Declaram-se autênticas malamadas, para dizer o mínimo.

Entre os crimes estão: esquecer as datas especiais; não enxergar um corte de cabelo; não presentear; não surpreender; não valorizar um sapato, um vestido novo ou uma produção inteira que passa como pantomima na frente de um cego. É isso: cegos! Surdos! Burros! Essas coisas. Minhas amigas têm suas razões. Imagino a frustração delas e vou já espelhando os olhos.

Eu empatizo com a causa, afinal, tenho pai e irmãos. Mas jamais poderia acusar meu Bitols de qualquer semelhança com esses boçais, com esses brutamontes. Bitols sabe antes de mim se meu esmalte está opaco. Repara cada madeixa em meus cabelos. Domingo retrasado, por exemplo, sacou que eu tinha trocado de xampu pelo reflexo do sol nos fios. É mole? No duro. Bitols conhece como eu escolho a roupa de manhã, descreve com exatidão meus hábitos mais bizarros, como o de empilhar as calças jeans fora da prateleira depois de escolher ou como eu costumo esquecer as portas abertas do armário da cozinha. Percebe se eu emagreci, se fiz peeling, se fiz musculação. Memoriza cada centímetro. Às vezes, é assustador.

Como se não bastasse o status de condição enciclopédica, Bitols também aparece de surpresa, escreve bilhetinhos, presenteia e mima. Ele sempre me leva para jantar, jamais nega gorjeta, é gentil com todos. Valoriza meus amigos e amigas. Quer mais? Aprendeu a gostar da minha cachorra. Até estampou foto da bichinha na contracapa de um livro.

Qual é o meu problema?, você se pergunta. Ela só pode ser louca!, você se espanta:

- Onde se viu colecionar desenhos macabros desta maravilha, desta excentricidade da natureza chamada Bitols?

Eu conto. Você já vai entender.

Certa noite, deitados na cama, naquele blá-blá-blá com chamego, o famoso cuddling da véspera do sono, eu digo a ele o seguinte:

- Bitols, você é um gênio de verdade - num elogio referente a sua literatura.

O fulano me sai com esta:

- Não sou gênio. Eu só tenho um dom com as mulheres.

Sentiu o plural? Pois é. O próprio patife se orgulha porque leva jeito com o sexo oposto. Oposto, aliás, resulta em um termo mal empregado. Neste caso, o mais apropriado seria aliado. Sim, porque Bitols tem sexo aliado, mais que isso: sexo alinhavado com as fêmeas de sua espécie.

E, como não bastasse a autopromoção do dengoso, vem a Revista VIP, renomada publicação machesca dos infernos e, pasme, na mesma semana, intitula o self-se-acha poeta de Sabedor das Mulheres como a Palma da Própria Mão. Oras!

Da notinha essa, sabe como eu fiquei sabendo? Pela caixa de entrada do correio eletrônico, via emailzinho encaminhado pelo próprio Don Juan de Marca Diabo. Eu queria mesmo era capar o safado do jornalista que me aprontou essa “homenagem”.

Tudo bem. Até aí, tudo ainda estava bem.

Mas chegou uma nova mensagem dele: a previsível tentativa de aliviar o sadismo - estratégia aplicada repetidamente pelo moço. Sadismo sim, porque ele sabia muito bem o que fazia quando fofocou sobre a referida coluna da Revista VIP (as in Very Important Putaquelospariu). No corpo do email, vinha todo felizinho num olha-que-linda-você-estava-naquela-roupa! No anexo, as fotos de um lançamento em que participamos.

Aí, sim. Aí, sim, a gente vê que ele é um poeta de mão cheia. Mão cheia na coxa da colega de mesa.

E minha amigas amaldiçoando seus mãos-bobas:

- Fala sério.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Superfantástico (só o Balão Mágico)

EPITÁFIO
Poesia não é truque,
é magia.*

*@Carpinejar



Admirável. Não tem outra palavra pra apreciar a qualidade de ginasta, o preparo físico atlético, a condição hercúlea de Bitols para o trabalho. Poderiam chamar de hiperativo, mas hiperativo é aquele que não consegue completar suas tarefas. Bitols é ultra-ativo. Usa o combustível da ansiedade e cada gota faz mil quilômetros.

O dínamo-humano é capaz de conduzir três palestras no mesmo dia - uma em cada turno, uma em cada município. Adicione a isso: twittar em cada trecho de viagem, escrever uma crônica para o blog e responder espirituosamente quatro entrevistas por email, além da participação ao vivo em alguma rádio. A seguir, na banca, lembra de comprar figurinhas para o ábum do Vicente junto com os jornais do país em que saiu, resolve dilemas amorosos da Mariana via Skype, assina dois contratos, reconhece firma e envia pelo sedex, passa no banco e programa o pagamento de algumas contas. Ainda, calibra os pneus depois de ter mandado lavar o carro. No meio do caminho, compra um cinto pra mim, porque sabia que eu estava precisando.

Isso é a descrição de um dia útil qualquer - o mais intenso que conheço. Não apenas um, mas a sucessão deles encordoados. Que disposição! Bitols nunca está cansado.

Todo super tem sua kriptonita. A única vez que o vi cansar antes de mim, foi na balada. Depois, confidenciou: não tem mais o mesmo pique para a noitada. “Que alívio”, comentei. Achei que jamais achava espaço para exaustão.

Numa dessas, cavocou e criou lugar para um convite especial: foi chamado para turnê no Paraná. Bárbaro: várias cidades em uma semana. Na sexta-feira iríamos nos encontrar em São Paulo para o fim de semana. Dencanso programado? Claro que não: ele dá curso de crônica aos sábados.

O cabra começou por Curitiba. Teria uma mesa redonda coordenada por um compadre nosso.

Maldita a hora em que resolvi fazer piadinha.

Ele, o mediador, me escreveu perguntando algum detalhe. Respondi a questão. Aproveitei pra acrescentar (bem humorada, diga-se de passagem) que usufruísse de Bitols, mas que o devolvesse à remetente. O cara riu (até) e disse que, quanto à capital paranaense, a segurança era garantida. Mas em relação ao oeste, bem, estaria à solta no sertão.

Pulga atrás da orelha é pouco. Ganhei um circo retroauricular.

Durma-se com um barulho desses.

Bitols e eu falamos ao final de cada dia, o que, para nós, significa tarde da noite. Eu, acelerando a agenda para poupar a sexta, acabei extra-ocupada. Ao menos desmaiava na cama, não tinha tempo para imaginar possíveis safadezas bitolinianas.

Não via a hora de chegar o fim de semana e sair com os amigos paulistas e relaxar.

Na terça, ligou de um bar em que estava com colegas; na quarta, de um bar com companheiros; na quinta, de um restaurante antes de irem a um bar.

- Olha, Bitols, você se comporta.
- Imagina, amor, já vou para o hotel.

Chegou o dia e nos encontramos no aeroporto. Bitols estava um pouco pálido. Não tinha nem almoçado, o vivente – julguei que seria fome. Tinha uma gravação marcada onde ficaríamos hospedados, então partimos logo. Comeu rápido em uma padaria, chispou para a cobertura para se encontrar com a equipe de reportagem.

Quando voltou ao quarto, eu já tinha programado tudo: liguei para o pessoal e eles estavam passando pra nos pegar loguinho. Bitols, ainda mais esbranquiçado – agora com certeza - de sono, piscava para disfarçar. Tomou banho.

Descemos ao saguão, já tinha gente esperando. Eu, naquela festa! Bitols, um figurante de Thriller. Entramos no carro. Bitols, mudo, no banco de trás.

- O que houve com ele? – perguntou quem dirigia.
- Uma turnê de palestras – balbulciou o zumbi.

Uhum, palestras. Sei.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Fúria de Titã

EPITÁFIO
"Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram.
Amanhã também te vais".

Disse o corvo:
"Nunca mais"*


A filha mais velha de Bitols mora em Brasília. O filho mais novo, em São Leopoldo. São meio-irmãos que são mais-irmãos. Adoram um tête-à-tête. Têm assuntos fabulosos, piadas, projetos em comum. Mantêm blogs, trocam músicas, enfim, eles se amam.
Resultado: contas astronáuticas de celular.

- Bitols, pelamordedeus, pede pra eles desligarem!
- Mas é o único contato deles! É um crime. Prefiro pagar.
- Mas porque eles não usam o Skype?
- Skype?

E foi assim que instalamos no micro de um e de outro o programa gratuito de vídeo e voz em tempo real. O primeiro domingo aconteceu: quase um milgare. Instalados na cozinha, aproveitamos horas e horas conversando com Mariana. Não só hablando: ela mostrou até a música nova! Vicente apresentou o álbum completo da copa e ela achou que a Coréia fosse o time do Inter. Quanto rir! Os irmãos agora eram mais perto de casa. Cora, a cachorra, também caiu nas graças da câmera.

E mais: o software recriou o ambiente familiar. Passamos a cozinhar com a Mariana em cima da geladeira, a debater em mesa redonda seus casos amorosos, suas questões escolares.

E mais: os avós entraram na ciranda. Carlos Nejar, desde o Rio de Janeiro, tomou café conosco na livraria em Gramado. Interações impossíveis que começaram a fazer parte do dia-a-dia.

E mais: eu e Bitols, que já usávamos Nextel para falar via rádio e estar juntos, ganhamos uma ponte a mais. Que ganho secundário maravilhoso. Bitols, quando viaja, me mostra o quarto do hotel, os presentes que ganhou nas feiras, conta tudo com detalhes, desenhos e gestos. É um teatro de dois, uma alegria de namorar. Às vezes, falamos desde a estrada. Me chama do carro, apresenta o motorista. A imagem e a voz chegam antes. Mostro pequenezas, curtas do youtube, twitters, textos. Trocamos carinhos quase tocados. Já dormi com ele lendo pra mim: cabeça em um travesseiro e a tela no outro. A saudade já é companhia. Jamais interrompemos o assunto nosso.

E mais? Sim, também tem a diversão privê, as piadinhas pornográficas, as promessas para logo mais, o aquecimento de deixar no ponto. Pronto para o abraço. E eu achando o Skype tudo de bom.

Santa ingenuidade, Batman!

Vamos do céu ao inferno em três segundos:

- Triiiiimmmmm, triiiimmmmm... – Faz o micro online.
- Pai, quem é Cristiana?

Na mesa de centro da sala, o Vicente anunciou com seus cílios marotos abanando. Chamando no Skype, umazinha, em pleno gozo de fim de semana. Espio a tela:

- Hum, quantas amigas no Skype, hein, Bitols? Rosana, Sílvia, Márcia, Letícia, Camila...
- É que me adicionaram. Não sei quem são. Achei rude não aceitar. Mas eu nunca atendo! Juro!
- Uhum. Sei.


*Edgar Allan Poe

sábado, 10 de julho de 2010

Descansando em Paz.

Sonhar não custa nada.
E o meu sonho é tão real.

EPITÁFIO

Tomava Rivotril esperando
que o outro dormisse.




(sem scanner aqui na serra,
acabei fotografando a morte)

Com sono, sou irascível. Minha lucidez é delicada. Não sei nem como sobrevivi à residência médica e seus plantões. É um mistério para mim de onde arranjei disposição para anos de noites maldormidas. Fico intratável, pior que qualquer criança. Aliás, gastei a flexibilidade na infância. Não sobrou nada.

Já faz muito que zelo pelo tempo com Morpheus, pela higiene mental de sonhar.

Sonolência, pra mim, pesa mais que a fome no quesito irritação.

Cultivei um berço de dois metros quadrados, meu quarto é quase só cama. Lençois perfumados, fronhas rechonchudas, edredons coloridos, luz amena e suave na cabeceira. Tudo para garantir o pouso do corpo com toda majestade.

Vivia como a Michelle Pfeifer na cena de abertura de “Chéri”:

- Nada como uma cama toda só para a gente!

Aí chegou o Bitols.

Primeiro que o sono pra ele é rodapé da lista: o último que começa e o primeiro que termina. Pra ele, cinco horinhas tá mais que bom. Compreendo e admiro a fibra, achava inclusive superlindo que ele fizesse campanhas pra que eu o esperasse até a última gota da noite. Tive que ajudá-lo a entender que eu precisava mais de descanso que ele, que não era indiferença, que dependia do hábito das oito horas e patati-patatá. Ele se dobrou no romance e aceitou que eu fosse primeiro pra cama.

Ufa.

Depois veio a questão do café. Bitols era capaz de beber negrume em forma de tintura de café, um lodo espesso de cafeína, manhã, tarde e noite. Conclusão: agitação física, tremores e fasciculações musculares durante a madrugada (ui, que ódio! Chutinhos no meio do Lago dos Cisnes da minha cabeça). Recomecei a sabatina, agora com o tema anti-café depois das 22h. O moço se debateu, mas aderiu.

Ufa.

Depois veio a questão sonora. Não que eu não estivesse habituada desde a infância com meu pai serrador de troncos que fazia a casa tremer; estava. Mas é que o Bitols só ronca quando tem asma. Não é que eu quisesse um atleta do espirômetro, mas ele fumava muito antes de dormir. E ignorava a existência da bombinha, do nebulizador, essas coisas que reduzem inflamação pulmonar. Resultado: orquestra de barítonos espantadores de guaxinins imaginários na madrugada. Fiz o rancho na farmácia, convenci que era essencial, que baixa de oxigênio mata neurônios, ou seja, a cada noite com hipóxia ele ficava mais burro, etc. Resmungou, mas passou a praticar.

Ufa.

Depois veio a questão das declarações românticas na madrugada. Descobri que quando durmo viro o Shrek. Ele me abraçava de madrugada:

- Branquinha, eu te amo tanto!

- Tá bem. Me deixa dormir.

Juro. É verídico. Magoei Bitolinos com meu condicionamento militar, mas era automático! Rebati, argumentei, consolei. Fiz o que pude. Por fim, pedi pra que não esperasse comportamento polido. Dormindo, sou um ogro. Sinto muito. É questão de vida ou morte. Compreendeu.

Ufa.

Depois veio a questão do acordamento por qualquer motivo. Por exemplo, no avião. Adoro dormir em viagens. Desde pequena, no banco de trás do monza do pai, nos ônibus, em trem. Qualquer sacolejar me embala. Embarco no avião salivando os sonhos que terei, sempre psicodélicos e aventureiros. Bitols não perde a coca-cola jamais. E achava que eu também não queria desperdiçar o refrigerante ou o prazer do serviço de bordo. Ui, que ódio. No meio do Indiana Jones privê o cara me passa suco de laranja. E o pior: era pura gentileza. Como é difícil entender que sono pra mim é sagrado! Como é que a gente reclama de cavalheirismo? Respirei, baixei o volume da raiva, conversamos, entendeu.

Ufa.

Depois veio a questão da rádio nacional matinal ligada na cabeça dele. Abria os olhos logo cedo e já saía dando notícias altíssimas sobre tudo o que aconteceria no dia. E não é pouco: entrevistas, emails, passagens, homenagens, colunas, matérias, pautas, rádio, tv e jornal, o blog, o consultório poético, o twitter, o Vicente, a Mariana, a mãe, o pai, a ex, a outra ex, o salário, o curso de rock, o amigo, a amiga, o almoço. Eu não consigo com tanta alegria. Eu me afogava na excitação. Era o naufrágio do dia em cinco minutos. Dias e dias de desentendimentos matinais. De ogro passei a anão: virei o Zangado. Ganhei má fama de mal-humorada. Mas ele mesmo diagnosticou o descompasso. Reduziu a marcha. Agora levanta, sai de perto e telefona para alguém.

Ufa.

E agora o Bitols me deu folga e foi ao Rio de Janeiro.

Ufa?

Quem diz que eu conseguia dormir?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Porque até o Polanski encarou o presídio (mas fez um Escritor Fantasma).

EPITÁFIO
Matou o namorado
e foi ao cinema.




Toda última segunda-feira do mês, fazemos o Cineterapia. Fico sempre nervosa. É uma delícia, mas eu experimento o pânico das mãos molhadas e da boca seca.

O Bitols sempre ajuda. Faz a assessoria de imprensa, põe no twitter dele e ainda se presta a ser bilheteiro.

A cada um, ele sorri, faz uma piada do momento e se despede solene:

-Boa noite, boa sessão.

É divertido, logo, alivia a tensão. Correção: aliviava.

No último Cineterapia, eu, ansiosa como de costume. O Bitols, brincando como de costume.

Cheguei a ver de relance: uma morena no celular. Sim, chamou a atenção porque ficou de lado todo o tempo em que estivemos ali entregando os folders e as entradas como se esperasse alguém. E botava o celular na orelha. E bufava. E abria de novo o telefone. E bufava.

Fui revisar as poltronas para o debate dentro da sala. Quase todos já tinham tomado seus lugares. Ia no caminho de volta para o saguão, quando meu irmão me interpelou:

- Ele não fez nada que eu vi.

Parecia anúncio de desgraça: um tom algo sóbrio, o olhar certeiro, conheço meu mano. Pisei no tablado e dei de cara com a Bruaca de quatro patas em cima do Bitols. Celular na mão abaixada, encostadinha no caixote da bilheteria. Bitols de cenho franzido, encolhido, constrangido.
Ela tinha atacado, a Espertinha da Estrela.

Eu fui até lá, fiz a volta, pus a mão na nuca dele e ela, nada. Fez de conta que não me viu e continuou: que ia ao lançamento no Rio, que era su-ú-per-amiga da Ana (sim, a “Ana” é Ana Carolina, A Cantora) e que iari-iari-iari-iari. E eu parada feito um dois de paus.

Ui, que ódio!

Tive que sair dali e ir fazer a abertura no microfone. Tremendo de braba. Não posso negar que o nervosismo sumiu. Terminei a abertura e voltei.

Ela ainda estava lá! Cê acredita? Continuava miando que isso e aquilo.

- E aí? Vamos?

Me dirigi ao bilheteiro dos infernos.

- Vamos!

Ele respondeu saltando e recolhendo as coisas, igual criança saindo do castigo. E a Bruaca falou:

- Ai, acho que minha irmã não vem mesmo!

Ahan, irmã. Ainda largou essa. Cê acredita?

Entramos todos.

Depois do debate, eu me encaminhei tranquila para um jantar redentor.

Na calçada, adivinhe?

Cê acredita?

A Bruaca esperava na saída e ainda foi iari-iari-iari até o estacionamento, o carro dela veio antes e era três, não, cinco vezes o meu. E com bancos de couro. Vou te dizer: o terror.
Mais magra que eu, muuuuito mais rica que eu e amiga da Ana Carolina?

Ui, que ódio!

Fiquei em dúvida entre demitir e matar, mas achei que matar dava mais bilheteria.

PS: tá se perguntando o que o Bitols fez pra merecer um tiro? Vai ler o Canalha!; depois volta aqui e diz se não me dá razão.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Homem Perdigueiro

EPITÁFIO
Imperava sobre os sentidos.



Toda a vida tratei de ser mulher independente, moderna, destemida.

Em casa, o pai oferecia espaço na cozinha e na área de serviço; eu exigia aulas de espanhol. A mãe me inscrevia para cursos de modelo e manequim; eu queria dirigir motos, ter carrinhos com controle remoto, sair em viagens com a escola, jogar basquetebol. Eu venho de uma casa machista, onde valia mais o “o”. As calças eram do homem.

Minha alternativa foi querer ser melhor que ELES no campo inimigo, assim quem sabe, passaria a valer alguma coisa. Psicanalistas chamam de inveja do pênis. A mim pouco me toca o nome que dão, foi a melhor coisa que pude fazer.

Depois da análise e da vida, nada disso importava mais, queria mesmo era ser feliz no amor.

Trabalhei muito o ciúme: treinei os modos com ele. Tornei-me educada, polida, fina, quando enciumada. Não acho que tenho o direito de espremer a vítima com minhas suspeitas. Aguento no osso.

Eu me disciplinei a não telefonar perseguindo, a não mexer em gavetas, emails e carteira alheias, a não exigir que me ligue, que me escreva, que me dê atenção. Sempre fui de deixar quieto. Óbvio que falhava de vez em quando, mas tentava meu melhor. Aprendi a cuidar do que precisava. Se o outro compunha comigo era lucro.

Nunca acreditei em rédea curta.

Eu vinha felizmente arrogante com minha competência em ter e dar liberdade.

Quando comecei a namorar o Bitols, isso mudou. Primeiro, ele veio com uma proposta de sermos dependentes um do outro:

- Quê?

- Claro, olha que lindo se tu me ligasse durante toda a tarde e fosse me contando as tuas coisas. Sem essa de guardar tudo pro jantar! Ainda vou te transformar numa perdigueira.

No início, foi muito estressante. Às três da tarde recebia torpedos enfurecidos cobrando porque é que não tinha dado notícias desde o almoço, afinal, toda a tarde já tinha passado.

Toda a tarde?

- Mas Bitols, eu tava atendendo.

- Não consegue mandar um torpedinho? É assim que tu cuida de mim? Ainda vou te transformar numa perdigueira.

O homem era um vesúvio.

- Esqueceu o celular em casa? O quê?! Mas tu não pensa em mim de manhã? Não pensa que ia ficar sem falar comigo?

- Mas Bitols, eu saí correndo atrasada...

- É assim que cuida do nosso amor? Ainda vou te transformar numa perdigueira.

Tudo para mim era novidade. E eu que me achava na medida certa do equilíbrio? Como admitir minha aspereza e falta de romantismo? Juro que acreditava que indiferença era modernidade. Difícil entender o que ele queria. Foi quando Bitols fez um texto: quero uma mulher perdigueira.

Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada quinze minutos para contar de uma ideia ou de uma nova invenção para salvar as finanças, quero uma mulher que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime. Que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu. Que seja escandalosa na briga e me amaldiçoe se abandoná-la. Que faça trabalhos em terreiro para me assustar e me banhe de noite com o sal grosso de sua nudez. Que feche meu corpo quando sair de casa, que descosture meu corpo quando voltar. Que brigue pelo meu excesso de compromissos, que me fale barbaridades sob pressão e ternuras delicadíssimas ao despertar. Que peça desculpa depois do desespero e me beije chorando.
(...)
Quero uma mulher que esqueça o nome de seu pai e de sua mãe para nascer em meus olhos. Em todo momento. A toda hora. Incansavelmente. E que eu esteja apaixonado para nunca desmerecê-la, que esteja apaixonado para não diminuí-la aos amigos.

Afinal, caiu a ficha. Achei até justo, mas impossível pra mim.

Venho me esforçando para aumentar a superfície de contato ao longo do dia e ele, para diminuir a urgência.

Com o tempo, sabemos mais um do outro. Ficou mais fácil ao perceber que ele não escolhia ansiar tanto; era da natureza dele tanto quanto era da minha a estranheza e a solidão.

Na infância do Bitols, apenas o feminino tinha valor: homem não prestava, homem abandonava, partia sem olhar para trás.

Corremos mundos opostos em direção ao centro. Nos achamos na praça para brincar de gangorra.

De março do ano passado, quando fez a crônica, para junho deste ano, muita coisa mudou. O lançamento do seu novo livro de crônicas, Mulher Perdigueira, está acontecendo.

Essa semana, amigos me disseram que não sabiam que eu era tão ciumenta. Tinham lido crônicas do Fabrício supostamente feitas sobre mim.

- Quem diria, hein? Cínthya, uma mulher perdigueira! Como tu engana bem...

Adianta gritar que "É LITERATURA! Ele inventa coisas!" Adianta?
Uh! Que ódio! Todo mundo pensa que sou EU a mulher perdigueira! Justo eu?
Não posso acusá-lo de não ter me avisado.
Mas posso usar a asma e matar o bastardo sufocado (de tanto amor).


AUTÓGRAFOS DE MULHER PERDIGUEIRA

4/6 (sexta), 19h30 - Rio de Janeiro (RJ)
Debate com a cantora Ana Carolina
Sessão de autógrafos do livro de crônicas
Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 páginas)

Livraria Argumento
(Rua Dias Ferreira, 417)
21 2239-5294
_________________________________
7/6 (segunda), 19h30 - Porto Alegre (RS)

Debate "O AMOR É SIMPLES",
com Martha Medeiros e José Pedro Goulart
Sessão de autógrafos do livro de crônicas
Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 páginas)

Livraria Cultura
Bourbon Shopping Country
(Av. Túlio de Rose, 80 - Loja 302)
51 3028-4033

domingo, 2 de maio de 2010

Motor me Poupa

EPITÁFIO
No Amazonas a água é verde e barrenta
e muito mais segura do que a terra.




Bitols é um caixeiro viajante da palavra. É convidado para palestrar em tudo que é lugar: de Cacimbinhas à São Paulo, de Arroio do Sal à Natal. Às vezes eu posso ir junto, fico feliz da vida.

É clichê, eu sei, mas adoro viajar. Fui um bom tanto na vida na época em que o pai sustentava. Mais um pouco no tempo da residência. Botei os pés na Europa e nos Estados Unidos. Cheguei a mais de um território latinoamericano. No país, conheci capitais e fiz considerável montante de kilômetros litorâneos. O melhor foi o ano em que morei na Amazônia.

Cada um tem uma vida paralela silenciosamente desejada, sonhos recolhidos disso ou daquilo. Eu guardo planos secretos de voltar para o Pará.

Antes de namorarmos, já quase não viajava: uma coisinha aqui e ali. Partia principalmente para empreitadas de ser a médica em rallyes, em baterias de motocross, em campeonato de vale-tudo. Portava garbosa macacão escrito SOCORRO ou RESGATE e tudo.

As raízes menos elásticas poderia atribuir ao sacerdócio que adotei na profissão, à nobreza monástica, enfim. Mas não posso culpar a medicina, é muito mais a dificuldade de quem é autônomo no Brasil. Sair à paisana significa perder duas vezes – por não ganhar trabalhando e por gastar no passeio. Cada dia conta.

O mesmo posso dizer de Bitols que nunca vi parar de produzir. É a liberdade do auto-emprego. Não tem milagre.

Certa feita, Bitols foi convidado para ir à Itacoatiara, na Amazônia. Meu coração disparou. Quase esperei que me convidasse. Acabei me atirando mesmo:

- Me leva, Bitols?
- Claro.

Que maravilha! Programei a agenda, cuidei de tudo, seria apenas um fim de semana, perfeito.

Aí começaram os detalhes: saída na madrugada, onze horas de voo em aviões separados porque a produção não arranjou passagem junto. Espera de horas solitárias no aeroporto em Manaus; depois mais 6h sacolejando em ônibus sobre estrada mista de terra e buracos dirigida ao interior do matagal. Resumo: uma indiada.

Mas estávamos juntos, a cidade era uma graça, o festival emocionante de leitura na floresta. As gentes amáveis, alegres, o calor do amazonas de que muito sentia saudade.

A palestra do Bitols foi um estouro. Adoraram. Ele é muito cativante e o discurso é animado, inteligente e bem humorado. É uma performance. Lança mão de recursos inusitados: escreve palavras com o que resta dos cabelos na nuca, pinta as unhas da mão esquerda, usa óculos coloridos com formatos estranhos de taça, de estrela, com luzinha. Adapta ao rosto dos convidados que dividem o palco. Ainda transporta perucas, algumas loiras, outras cor-de-rosa e até uma de crespos fios pink. Joga espuma na audiência que ri como quem goza. Tudo sai de uma sacola tímida carregada por ele. Um sucesso.

Fomos para o hotel, eu me sentindo a primeira-dama. Arrumadíssima, festejada pelos presentes, uma celebridade instantânea. No quarto ríamos felizes, pitadas de euforia por causa do cansaço. Tinha sido uma maratona.

Pela manhã, ajeitamos nossas malas e passamos a reorganizar os pertences da sacola de palestras. Derramei os itens pela cama e fui recolocando: perucas, óculos, latas de spray, um pacote de camisinhas.

- Isso aqui faz parte do teu Kit palestras?
- Mas amor, tá fechada. Tem mil anos aí dentro!
- Aham, sei.

Acho que vou virar caddie de palestrante. Com um macacão escrito LEÃO DE CHÁCARA.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Piromania

EPITÁFIO
O Fogo não depende
de roupas de baixo.


Acordou sábado e gritou do quarto. Como uma urgência no closet, um infarto nas prateleiras:

- Preciso comprar cuecas!

Primeiro, não dei bola e continuei o café. Mas ele deu sequência:

- Não tenho mais! Não sei onde estão as cuecas. Acabaram? Sumiram?

- Sei lá, Bitols.

- Já vasculhei na casa da mãe. Minha esperança estava nas tuas gavetas.

- Tá bem. Que drama. A gente compra cuecas.

Como não dei importância, saiu à cata de meu irmão. Achou um compadre. Discorreram sobre o tema das cuecas velhas, que gastavam, que sumiam. Filosofaram sobre o sinal de maturidade masculina que é poder comprar as próprias roupas íntimas, debateram sobre as grifes e os modelos. Relembraram a infância das sungas, a jovialidade das boxers e trocaram minúncias acerca dos tecidos sintéticos.

Logo mais, antes do almoço, fomos aos salão. Chegando na manicure, pedi:

- Bitols, vai comigo no posto fazer minha vacina?

- Tá, mas eu preciso ir comprar cuecas.

Mas que merda de história de precisar urgentemente de calçolas era aquela? Comecei a desconfiar. Por que não foi no mês passado? Por que não pensou nisso antes? Por que não lembrou nem no auge do verão? Um pouco mais de meditação e concluí:

- Ah, sim, o senhor vai viajar a partir da próxima semana e pelo mês todo! Quer fazer um tour cuequístico pelo Brasil. Canalha!

- Como assim, amor?

- Mas é óbvio! Como não vi de cara? Tu quer motivo pra tirar as calças com orgulho. Escuta aqui, Fabrício, eu, quando sabia que ninguém ia ver, não combinava calcinha e sutiã, não. Ia de time misto. Time misto é a prova da boa intenção. Cueca velha é o time misto do homem!

- Não é isso, amor, são para ti.

- Pra mim? Pois se é assim, de cueca eu tô legal. Quanto mais velhas e mais descoloridas, mais me sentirei amada.

Ele riu, afirmou-me paranóica e assumiu que poderia deixar para a volta, tudo bem.

- É, pode ser.

- Tu tem as calcinhas mais bonitas sempre, nunca te acusei por usá-las fora da cidade!

- É, pode ser.

Eu fui me acalmando. Terminei rindo com a Val enquanto ela esmaltava as unhas e me apoiava. Cochichou:

- Não deixa viajar de cueca nova jamais!

Confessou que seu o marido não recebia essa liberdade. No minuto final, ela abria a mala e fazia a troca. Tinha um fundo falso de peças íntimas puídas e manchadas só para o caso.

Voltamos em casa para resgatar meu irmão e fomos comer. Dentro do carro, a comédia voltou a baila. Bitols quis garantir o apoio machístico para a desforra final da minha suposta vã desconfiança. Meu irmão, fanzoca de um deixa disso como poucos, saiu com a pérola:

- É claro! Imagina, muito pior seria ele voltando de São Paulo com as cuecas novas.

- Claro, imagina. – apoiou Bitols.

É claro. Mas pra que imaginar se a gente pode lembrar do moço em questão CHEGANDO com várias cuecas novas da última viagem.

terça-feira, 30 de março de 2010

Só não vê quem não quer.

EPITÁFIO
Mais que tudo,
amava a diligência.





Notas rápidas sobre este assassinato:

Não sou contra adulações extra-açucaradas ao Bitols nos shoppings, no supermercado, na feira.

Não me chateia que digam que ele é O má-xi-mo, que o amam: tudo bem.

Eu entendo, está tudo certo, juro. Até aguento seu ego do tamanho de um zeppelin pelo resto da noite.

Não me incomoda que o beijem, que peguem autógrafos, que perguntem se ele é quem pensam que é.

Acho bonito que contem como ele mudou a vida de alguém, como um poema resolveu um mistério, como uma crônica desafogou um amor.

Adoro que ele seja representativo de uma geração, que ele seja a voz da alma feminina, que alcance o status de tradutor tipo um Chico Buarque, um Chico Xavier da asma, sei lá.

Admiro que ele seja provocativo, irreverente, um outdoor dos faceiros da vida; que ele seja o contra entre os contras; que ele seja a inversão inesperada do meu dia e que isso se estenda pelas portarias, pelos elevadores e pelos restaurantes que frequentamos.

Amo que o twitter dele tenha zilhares de seguidores, acredito que a ferramenta nasceu para a ponta de seus dedos ferverem e gozarem o teclado.

Quando vêm, ele fica garboso, estilo brilhantina, sorrindo autenticamente, (e pasmem!) quase tímido. É tão bonito. E sou feliz quando ele fica feliz. Eu não tenho ciúme de sua alegria.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é filha-da-putice.

Por exemplo, tudo isso que citei é muito diferente de domingo, na Fnac, onde fiquei salivando sobre os micros enquanto ele farejava os impressos.

Quando estava voltando, eu vi de longe - porque nessas horas, ardo por uma santa miopia que não tenho: lá granjeava a lambisgóia quiquiqui-cócócó; hihihi-hahaha.

A poucos metros; a alguns segundos de distância e eu já arfando.

Ela me viu de canto de olho e partiu em disparada pra outro lado.

- Que é isso, Fabrício? Puta-merda faz cinco minutos que saí daqui!

- Nada, ela só veio pedir uma dica de livro.

- Ahn, dica de livro.

Vou te dar um monte de livros para que possa olhar mais de perto.

terça-feira, 16 de março de 2010

Não Enxame o Saco!

EPITÁFIO
Açúcar demais
é veneno
.




Estava passseando pelo Twitter* no exercício diário de voyeurismo quando um retweet** me fisgou.

Fui avaliar a fonte e me deparei com várias orações dignas de respeito. Farejei o blog da tuiteira e acabei com um achado agradabilíssimo. Via-se que se tratava de profissional do ramo, cheia de florestamentos na linguagem, embora trafegando em paisagem claramente urbana, uma beleza!

Gastei o tempo nos bordados, curti o ambiente como num passeio bem acompanhado.

E que fotos bonitas! Ela surpreendia na desenvoltura das imagens porque era feia. Vamos combinar: era feia, mas que charme! De encaracolar o liso extremo dos meus cabelos. Quem dera posar desse jeito. Via-se que ela se sentia dadivosa na hora do clique.

Sentada na sala, apreciava o encontro quando passou o Bitols atrás do sofá. Louca pra partilhar a descoberta perguntei:

- Conhece a @xxx?

Empalideceu.

- Por quê?

Lasquei na hora:

- Tu comeu ela.

- Por que está dizendo isso?

- Comeu ou não comeu?

- Por que está perguntando?

- Ora, Fabrício, só queria contar que “descobri” a artista em questão no twitter e gostei muito. Você, estando fora dos eventos, culpadinho, já desatinou a se defender perguntando por que eu perguntava!

- Vai perguntar isso sobre todas????

- Não. Só quando for esse mal estar. Eu sei que é passado teu, nada a ver comigo… Eu sei, mas é que eu não queria notar isso estampado na tua cara quando a gente encontrasse com elas, sei lá!

- Ah, mas pra isso a gente teria que se mudar do país.

Mudar não dá. Mas matar, sim. E bem dolorosamente.

______________________________________________________________
*Twitter - Não conhece? Consulte a Wikipédia

** Retweet – quando um tuiteiro repassa aos seus seguidores um tweet que considerou interessante.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Suicício de Highlander

EPITÁFIO
Via dança e poesia
nas roupas do varal.




Drão, o amor da gente é como um grão
Tem que morrer pra germinar.
Gilberto Gil

Fabrício terminou comigo. Pela terceira vez. Terminou com berros, pediu para que eu descesse com suas coisas. Passava da uma da manhã. Faço questão de escrever sobre isso, assim empresto companhia a mim mesma (porque me senti uma palerma).

Nossa relação é intensa e divertida, ele é um quatro-em-um de gentilezas. Fabrício veio com bateria de lítio ultra-leve. Está sempre bem-disposto, sempre bem-disposto, sempre bem-disposto, sempre.

E eu, não.

Na noite fatídica, por exemplo, passava da meia-noite e eu ainda estava trabalhando. Foi aí que ele ligou.

A boiada estourou quando eu não mandei um torpedo avisando que estaria ocupada, para que ele não se sentisse rejeitado. Eu nem pensei nisso, esse tipo de coisa jamais me ocorre. De modo geral, imagino que o outro vai dar um jeito. Eu desisti há muito tempo de granjear elogios pelo excesso de cuidados ou parcimônias. Talvez isso tenha vindo com a medicina, embora não esteja me livrando da responsabilidade. Mas não vejo que isso seja falta de conectividade, apenas não penso o mesmo que ele.

Pior que isso: eu vinha pedindo a chance de brigar. Quero brigar e não falar mais hoje, amanhã retomar a conversa com o sono bem cumprido de escudeiro. Quero desligar antes de arranhar o disco. Quero pousar a xícara no pires para esfriar o chá.

De novo, ele não deixou. Sei que não é maldade, está mais para temperamento. Mas o fato é que assisti ao avassalador final da relação sabendo que iria se arrepender. A dúvida pesava sobre mim: e se eu não quisesse embarcar novamente? E se meu santo fechasse a conta? E se a aposentadoria viesse precocemente com a demissão?

No outro dia, recebi o torpedo dele requisitando itens específicos para a devolução. Coisinhas que eu não tinha reunido na madrugada. Camiseta do Inter, camisa da Cavalera, umas meias, uns troços.

Sonhei que quando ele chegasse, estaria com a laçada armada: enforcaria o diabo sacada afora.

Melhor que viver sem ele vivo, seria viver com ele morto.

Os restos de um amor pela casa estremecem a febre. Fervi durante cinco dias. Ele , por sua vez, já estava mais que pronto para voltar. Fabrício, além do lítio, tem adamântio por dentro. É meu Wolverine particular. Sempre bem-disposto. Consegue morrer tantas vezes quantas o amor precisar.

Eu, não.

Mas sou uma assassina de mão cheia.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Offline

Epitáfio
Gostava de entrar de
cabeça em seus textos.


Passeava pelo Facebook quando meu amigo querido que vive em Los Angeles apareceu online. O serviço de mensagem instantânea do Facebook é tão precário que só serve para convidar o contato para um encontro em outro programa. Foi o que fizemos.

Não entrava no MSN desde que eu e Bitols começamos a namorar. Logo no início, conversamos sobre como o messenger podia ser um covil de conversinhas que convidavam a outras conversinhas muitos piores. Combinamos aposentar os nossos.

Quando entrei no MSN para falar com o compadre dos states, estava cometendo uma infração. Escolhi o modo “invisível”. Verifiquei meus contatos bloqueados do passado sorrindo enquanto chateava com o amigo querido de LA. Qual não foi minha surpresa quando vejo o nick de Bitols atualizado informando o twitter dele?

Quando isso tinha acontecido?

Meditei a respeito. Como poderia cobrar a brecha se eu também quebrava a promessa? Formulei um plano rápido. Resolvi twittar que estivera no MSN. Pus assim:

Entrei no MSN. Não tive coragem de sair do invisível, no entanto. Achei que ia ser uma chuva de: oh, está viva. Não quis passar vexame.
4:47 PM Feb 19th from web

A isca funcionou perfeitamente. Bitols escreveu um email comentando a twitada.

oi amor
aquilo que tu sentiu hj no MSN acho que eu também sentiria.
mal entraria, e todas as janelas diriam:oh!
ficaria constrangido e logo invisível.
faz um tempão que não entro. não dá para mexer no passado.
beijo
Bitols

Bingo. Ele também lembrava da promessa. Feito o barraco:

- Que história é essa do senhor ter andado no MSN?

- Eu te falei, amor, dei aquela entrevista.

- Que entrevista?

- Aquela para a Bahia. Foi via MSN. Eu te falei.

- Falou porcaria nenhuma! Que conversa foi essa de melhor não provocar o passado? Que passado? Não bloqueou teus contatos?

- Mas eu não sei bloquear!

- Ah, não sabe? Não sabe clicar com o botão direito?

- Juro! Não sei! E depois, acho “bloquear” tão forte...

- Quer dizer que o senhor deu a tal “entrevista” com mil contatinhos gritando: “Canalha”, é você?

E aproveitou para deixar teu Twitter para as mocreias.

Deixa pra mim. Vou ensinar a bloquear no computador.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Borbulhas de Amor

EPITÁFIO
Há outras formas
de aquecer um corpo.


- Vamos passar a noite no motel?

Achei legal a ideia, afinal, divido o apartamento com meu irmão. Seria, sem dúvida, mais romântico.

Eu não sei nada sobre motéis. Devo ter freqüentado, no máximo, uns dois. Na vida. Juro. É puro fruto do acaso porque acabei namorando gente que vivia sozinha. Então, não tive o tour iniciático, não herdei problemas com sogros, não girei pela cidade.

Quando ele sugeriu o motel, achei bem diferente. Meio cedo para já querer “diferente”, mas ok. Segurei o pensamento inseguro e fiz o mantra de “é pelo romance”.

Chegamos no motel muito rápido. Estranho para quem sempre pergunta as rotas, os melhores trajetos. Na portaria, nem leu a tabuleta, saiu pedindo suíte 23 ou 33 não-sei-o-quê.

Eu olhava tudo disfarçando a cara de tonta. Não estou acostumada a não saber certas coisas, ainda mais aos trinta anos. Como ia contar que não conhecia nada de nada daquilo?

Para minha surpresa, chegava a me sentir encabulada de estar num motel, tamanha a lacuna que encontrei: vergonha de estar em motel eu devia ter sentido aos quinze anos, não agora.

Havia quartos com e sem Academia do Prazer, a voz anunciou. Na hora repeti rindo baixo, mas ele ouviu.

- A Academia do Prazer daqui é mixa, precisa ver os equipamentos dos motéis da Scharlau.

Acrescentou uma piadinha sobre um tal “JM” que sai nos cartões de crédito da região metropolitana

- Como se isso guardasse segredo, mas TODOS sabem que “JM” são as iniciais do dono dos motéis da região.

Todos sabem? Ia me segurando no assento do carro, rezando pelo botão ejetor. Mas o pesadelo só começava. Lembrei da amiga da adolescência que tinha cartão Vip do Vison Motel e ganhava descontos e pernoites com seu namorado. E eu lá, mentindo que já conhecia e não achava grande coisa.

Falou da batata frita do motel botafogo, da decoração brega no porto dos casais, da decadência do medieval, do bom e honesto A2.

- Hum, sei. É mesmo? Puxa. Quem diria?

Começou a encher a banheira e disse:

- Mas é para depois, tu sabe, né? Depois da hidro não dá para fazer nada.

- É, realmente.

*Gracias, Bob,
pela sugestão
de morte.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Esse teu olhar

EPITÁFIO
Tinha orgulho de seus olhos
porque mudavam de cor.



- Amor, eu estou tão envergonhada.

Confesso chorando dentro do carro.

Gosto de falar coisas importantes dentro do meu Twingo estacionado, com motor rosnando, ar condicionado zunindo e vidros fumê selados. É como instalar um confessionário moderno, uma namoradeira com vedação sonora, uma câmara acústica. Em nenhum outro lugar me sinto tão resguardada.

Enfim, chorava e confessava minha vergonha por ter mexido no celular dele.

Sim, eu mexi no celular dele. Aconteceu uma única vez, não irá se repetir. É simples: não espero não achar nada. Sempre haverá alguma coisinha naquele blackshitberry dele. Essas coisas estarão em qualquer blackbosta, de qualquer um: (já disse Tom Zé) é somente requentar e usar.

Foi uma madrugada insone, um lapso. Doeu demais. Levei dois dias me contorcendo até explodir:

- Quem é Julia?

- Que Julia?

- Uma de quem tu guarda os olhos no céu da boca. E manda beijo. E chama de mulher maravilhosa. E no aniversário manda os lábios embrulhados para viagem!! (Uááááááá)

- Ah, essa Julia. Amor. A Julia é atriz, minha amiga de São Paulo. Sabe como eu sou carinhoso nas mensagens.

- Eu sei, mas é que...
(uáááááá)(uáááááá)(uáááááá)

Centenas de Uááás depois, passou a tristeza.

Veio o ódio estratosférico. A vontade de esmagar aquela cabeça sedutora dos infernos.

Carinhosos são os meus amigos. Aquilo é ser passado, safado, Canalha! Que ódio.

Morte com uma marretada. O sangue banhando suas pupilas anisocóricas (uma dilatada e outra contraída): que é para ter certeza de que morreu com o cérebro pifado.

E com jabuticabas sortidas nas órbitas.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Quer uma mãozinha?

EPITÁFIO
Pela última vez, pintou as unhas
de vermelho escarlate.


Meu irmão deixou avisado desde a pré-adolescência que tudo o que um cara espera como sinal de resposta positiva na hora da cantada é o sorriso. Quando a mulher ri, a guarda foi posta de lado.

Por isso, para mim é difícil lidar com a espontaneidade do Fabrício: naturalmente alegre, comunicativo e sedutor. Poucos resistem às brincadeiras, aos gracejos, ao espírito alto e inteligente que ele tem.

Estávamos no Rio, na sorveteria Itália. Calorzinho de cinqüenta graus, a loja estava lotada. Íamos enfileirados, estilo repartição pública. Eu, à direita dele, olhava os sabores na vitrine. Fui lendo as plaquetas, distraída, coco, iogurte natural, doce de leite, passas ao rum, chocolate e menta quando, de repente, explode um hihihi-hahaha do meu lado.

A mocinha morena veio pela esquerda e cutucava o Fabrício para espiar os sabores no freezer. Ele gostou da provocação e pôs as mãos em frente ao vidro para bloquear a visão dela. A engraçadinha, que devia ter comido Palhacitos no café da manhã, ria da piada da semana – que eu pensei que fosse eu.


Morre novamente, dessa vez, perdendo as mãozinhas em duas versões: 
uma sem cenário e outra com a favela fazendo fundo.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

No fundo, no fundo, somos rasos.

EPITÁFIO

Era todo apaixonado
por lavar seu carro.




Estivemos no Rio de Janeiro e a produção providenciou hospedagem generosa, porém na distante Barra da Tijuca. Desde o aeroporto, os taxistas avisaram seus altos preços para o deslocamento. Tive o estalo:

- Vamos alugar um carro?

Hoje em dia, com GPS, nada há a temer. Diante dos balcões, Bitols insinuou que fôssemos até a Localiza. Achei estranho preferir no desconhecido. Questionei se já tinha alugado carro antes.

- Não, nunca.

- Então por que a Localiza?

- Ah, é mais famosa.

- Não é mais famosa que a Hertz.

- Sei lá. Propaganda talvez.

Acabamos, de qualquer forma, restritos à Localiza porque nenhuma das outras dispunha de veículos no momento. Na hora do cadastro, o balconista, carioca, riu entre os dentes e saiu com a pérola:

- Pois é, Sr. Fabrício, mas temos um cadastro aqui no seu CPF.

- Não pode ser.

O atendente testemunhou o aperto do homem e minha cara de fúria surgindo.

- Mas é beeeeeem antigo – tentou aliviar.

Bitols insistiu na tese do engano até ficar impossível continuar com aquilo, já que o atendente precisava operar dentro do cadastro existente. Até porque, o endereço era aquele, o telefone também e até mesmo o nome da mãe. Números podem ter dígitos trocados, mas nome da mãe é prova dos nove.

Rendeu-se. Fez um ar de “ah, lembrei”, argumentou que foi o seguro, quando bateu o carro, blábláblá.

- Ahã, sei.

Planejei tudo: assim que voltássemos, quando menos esperasse, cortaria os cabos de freio do seu Crossfox amarelo e assistiria ao sol se pondo no Guaíba com gostinho de vingança.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Suave Veneno


EPITÁFIO
Ele ainda pensava que a asma
era seu principal problema.



Estamos em época de revisão de livro de crônicas. Nesta fase, Bitols fica frenético. Exige minha releitura, anseia por meu foco total, deseja minhas críticas. Concordei em ajudar, mas só depois de resistir muito. Chorei, acusei, briguei. Depois de me envergonhar de tanto ciúme.

Não gosto de ler textos antigos, é como estar obrigada a chafurdar entre páginas de um diário. Nunca fui de espiar o passado de ninguém. Meu passado, por exemplo, é fossilizado embaixo da terra.

Compelida à tarefa, achei uma pérola onde ele supostamente transa com algumazinha que grita “Ai meu deus”. No final, ele se converte.

Ah, que ódio!

Merece uma morte violenta, contorcido e trêmulo com o veneno que tenho vontade de despejar em seu bourbon.