sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Amigos, amigos. Negócios, à parte.

EPITÁFIO

Você que me dizia as verdades
com frases abertas*


*Adaptação de Roberto Carlos em “Amigo”: “você que me diz as verdades
com frases abertas”



“Feliz aniversário. Mando os lábios embalados para viagem”.

— Mas o que é isso, Bitols?

— É só um torpedo para uma amiga.

— Amiga? No meu tempo a gente dizia feliz aniversário, tudo de bom...

— Ah, pois é.

Melhor deixar assim e não engrossar o caldo. Afinal, eu sempre tive amigos e muitos deles, homens. Ainda por cima, mantenho o hábito de ser amiga de alguns ex-namorados, coisa que nunca foi fácil de sustentar entre eu e Bitols.

Quando ainda existia o Orkut, por exemplo, eu exibia um testimonial de um ex dizendo que me amava. Mas sabe que era uma coisa de amor de amigo? Pegou mal, lógico. Bati pé e o troço ficou lá. O assuntou ficou entalado, levamos mais duas ou três discussões até que Bitols desistisse da bobagem.

E, depois, o ex em pessoa acabou escrevendo para o Bitols pedindo dicas para conquistar uma menina que tinha sido aluna de uma oficina de poesia. Pensa? Foi o fim da cisma.

Quanto a esses detalhes difíceis, o melhor é ter muita paciência no estoque. Na hora em que a gente decide ficar junto, haja didática. É preciso explicar tudo tim-tim por tim-tim — não deixar a suspeita dormindo no escuro. Passar a limpo cada detalhe não é ficar por baixo: é ficar junto.

Daí, o Bitols foi chamado para falar na TV no Dia do Amigo. Era o telejornal de maior audiência do estado.

Eu não pude assistir na hora. Mas, quase que de imediato, fiquei sabendo das repercussões pela rádio corredor: “aaaaaaaaai, tu viu o que o Fabrício faloooooou?”. Ui. Senti que vinha bomba. Não, não vi, pois é, ele é meio polemista, etc. Minhas desculpas habituais.

Corri para o blog do dito cujo para descobrir. A página já trazia o vídeo postado. Nele, lá pelas tantas, a apresentadora fala:

— E agora uma pergunta que veio pelo twitter: existe amizade verdadeira entre homem e mulher?

Ao que responde Bitols, o infeliz:

— Olha, eu acho meio difícil porque o homem, ele olha a amizade de um jeito muito sensual. Sempre que um homem se torna amigo, amigo de uma mulher, ele fica tão apaixonado... É um mal que a gente tem. Eu não sei o que é que eu faço, sabe? Mas o homem em si, ele fica mais inclinado a unir a amizade com o amor.

— Você não tem amigas mulheres?

— Ai, é difícil.

— Haha. Você não respondeu: sim ou não?

— Hahahaa, é difícil.

E aí a gente descobre que toda aquela pataquada em cima dos meus amigos era projeção. É quando a paciência, o amor, a esperança e a amizade vão todos juntos para o beleléu.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Doutor Spot

EPITÁFIO

Dizia, pois,
Ouvir estrelas.





Duas coisas são impressionantes: o carinho das fãs do Bitols e o carinho do Bitols com suas admiradoras.

Alguns exageram dizendo que não existe relação entre obra e adorador, que não passa de ilusão. Estes céticos afirmam que o leitor vê com a lente de suas próprias coisas, da história pessoal e projeta em quem escreve o que bem entender.

Acontece que o Bitols dedica a vida para gerar, escreve pensando em quem vai receber, em proporcionar um tempo de experiência, uma aproximação. Tudo o que ele quer é que se identifiquem.

Ou seja: sim, é de propósito e, ao mesmo tempo, é sincero.

Eu mesma lia Carpinejar. Classifiquei O Amor Esquece de Começar como “maravilha”. Fiquei impressionada com a abundância de frases fortes, com o pensamento estruturado e inteligente. Gostei que ele visse as coisas pequenas com humor e sensibilidade. Mas, de resto, achei meio meloso, não fazia muito meu estilo de homem.

Algumas mulheres, ao contrário de mim, descobrem nele a bíblia de si mesmas.

E que beleza! Pensa quanta terapia economizam! Alguém traduzindo o que a gente se embaralha?

— Genial.

Eu entendo: é como um amigo íntimo. Daí elas pedem fotos e abraçam e nada me incomoda ou constrange.

Só tem uma coisa que eu detesto: quando ELE não se dá conta. Sério. As moças eu acho dez. Não, vinte. Acho super lindo e bacana.

Nunca fui de ter ídolos, exceto o Mike Patton. Se bem que não era beeeem um ídolo, quero dizer, era mais um tipo de vontade de ficar com ele. E não me deixaram ir no Rock in Rio que ele veio. Pior: meus pais me levaram para passar o verão na barragem onde nem TV pegava direito, quanto mais pegar o Mike Patton.

Enfim, se eu fosse ver o Mike Patton, não ia querer que a mulher dele ficasse por ali (ele não tinha mulher, mas enfim, se tivesse hipoteticamente). Ia ficar envergonhada de abraçar e tals. Pensando nisso, há uns tempos decidi que sair de perto é melhor, fica todo mundo mais à vontade. Claro, contando que ele VAI ter noção.

As senhoras e senhoritas carpinejáricas estão em seu direito irrevogável de tietes, certo? Ele é quem tem que manter a porra da compostura.

Acontece que o Bitols é muuuuuuito gentil. Muuuuuito legal. Muuuuuuuuuito cavalheiro. Isso pode ser confundido, já conversamos eu e ele sobre este comportamento e, para dizer bem a verdade, que saco ser governanta da etiqueta! E depois, é tudo problema meu — ele não tem problema com isso.

Quando a gente saiu de um show esses tempos, as garotas já estavam eriçadas, né? Pelo show, quero dizer. No saguão, viram o Bitols e fizeram gritedo, alguns grupos vieram, elas vêm em geral em mais de uma. Aí, eu fui saindo, como eu disse que faço, para eles se curtirem. Ficaram fazendo fotos. Eu dei a volta, desci as escadas indo ao estacionamento buscar o carro.

Ah, também! Eu que não me virasse para trás — assim não virava estátua de sal de fúria mortífera:

— Lá estava Bitols descendo uma de suas apreciadoras da mureta. Sabe? Aquele estilo Dirty Dancing, pegando pelo sovaco e baixando pertinho do corpo, apoiando com o tórax.

Patrick Swayze tupiniquim.

Uuui, que ódio. Vai ser gentil assim no inferno.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

E depois voar no azul/ Cruzar de norte a sul/ O céu e o mar.

EPITÁFIO

Na infâcia, guardava
uma pena de ganso no estojo.




A melhor coisa do universo é viajar junto com nosso amor. E não existe companheiro de viagem como o Bitols.

Nada a ver com o George Clooney do Up in the air (ou Amor sem Escalas): Bitols não faz o tipo prático, apesar das milhas de milhas acumuladas. Ele é mais o sujeito populista: suas filas no detector de metais, por exemplo, imitam as do SUS ― centenas de pessoas aguardam a remoção parcimoniosa do relógio, dos anéis, do cinto, dos sapatos ou dos suspensórios. Ainda somando contra a praticidade, suas malas pesam como se carregassem um cadáver e as viagens são tantas e tão curtas que dão nó nas pernas. Parece desagradável, mas não é. Não tem companheiro de viagem como o Bitols: ele se supera.

Cheio de gracejos, é mais conhecido que o Lula em aeroportos. Faz piadas com carregadores, porteiros, jornaleiros. O bom humor contagia a todos. Os óculos tipo mosca coloridos, a fala esquisita, as roupas lindas de escândalo: tudo favorece.

Tem mais: traz no mínimo cinco livros, sempre emprestando o que eu pedir. Às vezes, algum ganha carona só porque ele pensa que eu poderia querer. O laptop vai de bateria cheia e com filmes para vermos juntinhos dividindo fones de ouvido. A conversa é a melhor que existe, se a onda for de bate papo. E pra dormir, é o ombro mais cheirosinho, especialmente agora (Bitols completou vinte semanas sem cigarro).

Claro, tem a chatice de avião brasileiro. No último trecho, por exemplo, nosso voo era pra durar uma horinha. Mas aí é tudo lenda: demorou pra sair e, quando finalmente saímos, terminamos dando voltas pelo céu e aterrissando em Floripa ao invés de Porto Alegre.

Dentro dessa maratona, depois de dormir e ler e fazer tudo o mais possível pra evitar  o horror do banheiro da aeronave, não me restou outra saída: fui encarar o cubículo hiperaproveitado.

Quando voltava ao assento, vi que Bitols não estava.

E não vinha, não vinha... Ué?

Dali a pouco chegou o faceiro, rindo, abanando com as duas mãos. Olhei bem, tinha uma mancha preta bem em cima do... Bem, por sobre a braguilha das calças vermelhas estava uma roda preta de tinta.

― Que é isso, Bitols?

― Bah! Vazou a caneta, fui lá tentar limpar.

Então passou a aeromoça loirota, toda florescente e folgada:

― Como é que ficou? Borrei muito?

Come again (ou Cuméquié)?

Como assim "borrei muito"? Sério. Cinco minutos urinando. Um simples xixizinho. E o Bitols já estava de kikiki-cócócó com a copeira do ar?  Já imagino o projeto de governanta aérea esfregando a zona pubiana do Bitols.

Aí sou compelida a me agarrar na poltrona, torcer pra que ela flutue e facilitar a saída de emergência.

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Este é o filme do Clooney


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Leia aqui a versão de Bitols sobre o dia da caneta estourada:

Eu senti o apego durante um voo de volta a Porto Alegre. Estava com um terno cinza, retrô, escrevendo no caderninho e, de repente, a caneta estourou. 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Debaixo dos Caracóis

EPITÁFIO

O cimento não pergunta
o tamanho do pé.



Sempre admirei o processo criativo de Bitols. Leva menos de uma hora para escrever uma obra de arte.

No início, surpresa, pedi explicações do superpoder. Com naturalidade, respondeu que ir ao computador é a última coisa. Primeiro mastiga a ideia, namora sentenças, vivencia os conceitos, testa os ditos com amigos, com familiares, com o público em geral; depois registra as orações. Dorme sobre o assunto, acorda para a literatura. Quando chega a hora de derramar sobre as teclas, é muito veloz de chuva, basta digitar o que está pronto para servir. Depois, é só revisar, trocar repetições: filigranas do papel.

Incrível mesmo e é verdade. Todo o tempo caçando temas, paquerando novidades, bebendo história alheia, sugando piadas e reviravoltas. E digitando exageros, claro. Bem a seu estilo próprio.

Esses dias mesmo, contou que a editora da revista telefonou pra dizer que seu texto sobre a Gisele estava exagerado.

- Exagerado?

- É… Disse que estava meio demais.

- Hum.

Então fui conferir o tal artigo. É coisa de sete ou oito mil caracteres.

- Levou quanto tempo pra escrever, Bitols?

- Ah, umas duas ou três horas.

- Que the flash, hein?

Então fiz um cálculo rápido de quantas noites mais ou menos o Bitols vinha dormindo, comendo e respirando a Gisele pra permitir a formação da calamidade pública que é aquela coluna: deu uns dois séculos de punheta.

Sério. Nenhuma namorada no mundo deveria saber o que seu namorado realmente pensa sobre a Gisele. Eu sei que ela é linda e tals, não está em discussão a formosura da estimada conterrânea.

Mas uma coisa é saber que ele acha a alemoa deslumbrante em adjetivos gerais, sem maior gravidade. A questão é quando a gente descobre que outra mulher é sua diva, seu mantra mais demorado na língua.

Não é que o Bitols nunca tenha escrito sobre mim na Cláudia, sejamos justas. Verdade que publicaram uma cartinha de amor “coisa mais amor” que fez pra mim. Pouco mais de mil caracteres, bem gracinha, contando que gosto da Fafá de Belém.

Mas é que a Gisele do Bitols “é a perfeição da poesia superando o resultado da lógica”; “é a saudade de uma vida simples. Uma vida descomplicada. Sem censuras e ameaças”; “ela não é tudo, pode ser tudo, que é muito melhor”; “é o ideal do cotidiano. É a exuberância do comum”. E complementa: “Gisele Bündchen exige mais e mais atenção e não enjoamos”.

E muito mais você encontra na declaração explícita que o meu namorado fez para ela na revista feminina mais vendida do país.

Tudo bem: a gente tem que viver com as divas paralelas na vida deles, tá certo que sobre para elas todo esse sonho enquanto a gente suja a louça em casa.

Sobrevivi à leitura. Mas ele não.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ai-bota-aqui-o-seu-pezinho.

EPITÁFIO

Nunca lhe faltou 
aquela mão amiga.



Fim de semana na serra é diversão para toda a família. As crianças, carregadas de chocolate, brincam, brincam, brincam, brincam. Os adolescentes, graças ao wireless nas pousadas, não se alteram. Os adultos caem nas piscinas de ofertas. Liquidação de verão no outono gaúcho é pura simpatia.

As lojas montesinas guardam charme: uma elegante loja principal plus um outlet. Marca que se preza tem balaio gigante com preços de fábrica a uma quadra de distância do showroom. E a turistada ama um balaião. Todo mundo se engalfinhando para ter certeza de que está comprando pelo menor preço. Chegar ao caixa é a vitória dos mais fortes.

A qualidade é indiscutível: do artesanato à tapeçaria, dos couros, que são chamados “pele”, à moda para motociclistas passando por lãs e linhas firmes, bem costuradas, bem cortadas.

Sendo assim, preço e produto estão ok. O atendimento é que está em jogo. Parece que estão te fazendo um favor. A gente entra na loja e fica lá jogado às traças, num estilo “compra aí e não incomoda” ou “não quer levar, não tô nem aí”.

Contra esse tipo de comportamento, o Bitols tem estratégias especiais. A bem da verdade, Bitols adora mexer com garçonete, gerente ou revendedora Avon. Estou ciente.

Fim de semana em Nova Petrópolis, por exemplo. Fomos pegar uma chuva no topo das montanhas - porque chuva nas montanhas faz sentido. Entre as coisas de fazer na serra estão as compras, como eu vinha dizendo. Na primeira ponta-de-estoque, Bitols já saiu interpretando o olhar blasé da balconista:

- Que houve? Tá triste?
- Não...

- Está sim. Por que essa cara triste? Problemas de amor?

- Não...

- Se não é amor, então é dinheiro. Pode chorar, vai: chooora... - completa avançando e emprestando o ombro pra moça.

- É que deu tudo errado hoje! O celular estragou, meu carro não veio do conserto, meu computador pifou...

O conversê rendeu mais desconto ainda. Saímos do container-loja com dezenove peças de roupa.

Por isso mesmo é que não critico a alegria, o jeito de “sou amigo”: descola muita risada e ainda gera dividendos.

Já que a população de comerciantes serranos é mais mal-humorada que bartender de aeroporto, o morro virou prato cheio de piadinhas e mequetrefes mil. A cada estabelecimento, Bitols foi-se empolgando. No fim da tarde, chegamos aos esperados calçados:

- Ah, mas esses sapatos são feios.

- Depende do gosto! – respondeu a alemoazinha chinfrim.

- Não chooora: são feios! Só gosta quem tem mau gosto. – foi afirmando o lambisgóio-mor enquanto pegava a mãozinha germânica, branquela e fria.

Ficou lá de mãos dadas com a vendedora. E eu lá de pata choca.

Vez em quando dá beijinho em demonstradora, abraça e fica se balançando com as atendentes. Tudo bem. Mas mãos dadas? A suprema intimidade de um casal? Não aguento.
Fala sério. Comigo não tem desconto.

domingo, 6 de março de 2011

Conficções: o doce veneno do escorpião.

EPITÁFIO

Por dentro dos cabos
estavam os nervos.





Bitols é tão espirituoso que às vezes desejo que desencarne. Ambos sairíamos ganhando: ele estaria com os seus e eu ficaria livre de assombração.

Sou uma pessoa com alguns conceitos. Não acredito que seja fácil conviver comigo, chego a ter obsessões com algumas palavras, termos que signficam isso ou aquilo:

- Responsabilidade, grandiosidade, culpa.

Em resumo: eu falo um dialeto.

Não aconteceu de graça, não foi de uma hora para outra: são frutos dos anos de consultório e de trabalhar com a psico-análise. Acabei abraçada em algumas âncoras.

Por exemplo, não economizo em aplicar “loucura”, “fiquei louca” ou “louco”. Não uso como quem aponta um crime, mas também não lanço à toa, como um xingamento. É mais um diagnóstico simples, para lembrar a mim e aos meus que a gente visita a completa desorganização várias vezes ao dia.

Quando digo que “acho que isso está adoencendo teu filho”, “mentir assim é de enlouquecer qualquer um” estou falando sério. Bitols não gosta nem um pouco. Acha um saco, na real, o plantão selvagem e gratuito.

Tá bem, é xarope. Mas xarope nasceu para aliviar a tosse. Vou usar minha medicina especialmente com os que amo. Não topo assistir um deles se envenenando de risólis frito em óleo cancerígeno e não falar nada. Isso é negligência. O mesmo vale para quando vejo Bitols encobrindo que um filhote não deu a descarga. Acho “super-pai” o Ó.

Caçoo e chamo de Bob pai e Bob filho.

Deve ser um porre a presença de um padre cerceando os pecados, vai ver que é por isso que não casam e nem têm filhos. Adoro um púlpito e mereço a chacota; mas também ajeito as feridas, os arranhões, presto para indicar pomadas, prescrever comprimidos, tratar cólicas e dermatite seborréica.

Por isso é que fiquei fula, mas fula mesmo, quando o Bitols foi num programa de TV aberta praticar um dos seus retanches de escorpiano. 

Ah, eu estou sabendo que ele não tem compromisso com a saúde de ninguém, que está nessa vida pelo melhor do texto. Ele vai sacrificar qualquer compromisso com a verdade em nome do grande efeito. Já senti na pele - precisamente porque ele é genial no convencimento. Na hora do romance, nada supera seu discurso. Na hora da discussão, é um orador de primeira. Briga de cachorro grande, como descreveu minha cunhada.

Ele criou um gênero que se chama Conficção: parece confissão, mas é ficção. Ninguém sabe a diferença. Nem ele. É que o leitor quer alguém que viva, não apenas alguém que escreve bem. Bom autor está para ser um gêmeo, um tradutor da emoção. E ele faz isso como ninguém.

Outra coisa que ele faz como ninguém é dar o troco:

- Não era qualquer programa.

Era justamente o Camarote. Sim, aquele que participo todas as semanas fazendo a Crônica Falada. Meu sangue cozinhou as hemáceas enquanto engolia a paródia.

O santinho-do-pau-oco sentou no sofá na frente das câmeras e abriu a tramela discursando da importância de reclamar. Justo reclamar! A pior coisa - o modo mais rápido para ficar paralisado diante das coisas e mentindo que está fazendo algo a respeito. Um dos meus pontos chaves.

Foi golpe baixo e não parou por ali: saiu incrementando e disse que o amor é um pouco doença, que excesso de saúde adoece. E as pessoas no estúdio meneando a cabeça, rindo, achando bonito aquele monte de barbaridade. Ninguém nem imaginava que estava participando de um complô. Foram aliciados como todo o público que viu e que se sentiu legítimo na preguiça de melhorar a própria vida.

- Ui, que ódio de vingança velada!

Convenhamos: não quer ajudar, não atrapalha. Fiquei doente de raiva, esverdeada. No fim, isso aqui não deixa de ser também um revide. Pelo menos eu chamo de Matando Carpinejar.

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Confira aqui a famigerada entrevista.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Um dia é da caça.

EPITÁFIO

Ó, Fera feroz que feriste meu faro?
Que farei? Que farei?

- Coloca um esparadrapo
e respira pela boca.




Semana da dieta de proteína. O famoso regime do caçador - praticamente só carne. À la Naomi Campbel: no carbs. São os sete dias extraordinários onde me ajoelharia por uma colher de açúcar ou uma gotinha de mel; quando posso comer tudo o que aguentar num rodízio de grelhados e não quero nada com salgado: fico babando com o cheiro das padarias e mataria por um brioche.

Por que eu faço? Porque funciona. Nada melhor que uma semaninha protéica para recuperar os excessos de uma série de comilanças e os dois quilinhos chatos que chegaram de mala e cuia.

Este é o cenário quando convido Bitols para irmos ao churrasquinho. Claro, ele queria ir na boutique de bolos da esquina, só para provocar. Insisti, pedi por favor, tá, vamos lá.

Desde que entrou no carro, o celular não parava de tocar. Primeiro tentou disfarçar, apenas silenciou com o botão de rejeitar. Continuou o assunto, a questão dos croissants e tal. Mas irromperam as guitarras do Cake desde seu aparelhinho e, como num dèjá vu, mecanicamente cancelou a chamada. Outra vez, na sequência, e ele sequer olhou o visor - significando que isso já estava assim antes mesmo de chegar para buscá-lo.

Repetiu-se a insistência telefônica e, bem, perguntei:

- E aí? Que passa?
- Sei lá, um número que não conheço.

- Atende, ué?

- Não, não...

Evasivo, mas compenetrado em diluir a encrenca, continuou:

- Pois então, e quando acaba essa tua diet... – tãna-tãnana-tãna-tãnana-tãna as distorções iniciais de “Opera Singer”, anunciando que a criatura insistia.

- Atende, poxa.

Atendeu. Desligou.

- Ih, mas é a cobrar.

A essa altura você já imagina que eu montava em um porco. Adicione-se a isso o fato de que estava farta de presunto. Putaquepariu, Bitols! Pensei, mas não falei.

Óbvio: uma bruaca ligando a cobrar. Nada melhor para chamar a atenção de um homem que ligar a cobrar. Ou ainda: liga do seu número, o cara ignora. Daí disca de outro telefone, ou de origem bloqueada. Por que diabos ele não põe no silencioso! Pensei, mas não falei. Ai, que ódio!

Chegamos finalmente na casa de espetinhos e o trem desandou a tocar pela enésima. Bufei. Pressionou o verdinho e tava alto o volume do fone:

Tandan-tandadan-tandandan – chamada a cobrar, para aceitá-la continue na linha após a identificação – turuuuuuru...

- Alô! – enfezadíssimo – Quem fala?

- Ahsgdiuhkfjosdilgjldkamg – disse a voz feminina, mas ininteligível.

- Sônia. Quer falar com quem, Sônia? – Ríspido, brutal e sem dar chance de resposta, emendou:

- Olha, isso é um engano, ouviu? Não me ligue nunca mais!

Pois é. O cara da bancada, em frente às brasas, esquentou os olhos e quase explodiu rindo. Bitols, recomposto, sorriu desajeitado e inventou:

- Haha, parece que estou brabo mesmo, né?

- Aham. Ninguém notou nada. Foi super sutil.

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Ouça Opera Singer,
 o ringtone do Bitols

sábado, 8 de janeiro de 2011

Quem me dera ser um peixe.


EPITÁFIO
Último dia de aquário,
Primeiro dia de peixes.


Entrei no banheiro, a porta aberta. Lá estava Bitols, em pé, de frente ao vaso.

- Opa! Tava aberta.

- Tudo bem, terminando aqui.

A cena natural, tranquila. Intimidade tem seus flagrantes.

Seria passageira não fosse o detalhezinho sobre a louça branca. O disco alvejado, o donut das nádegas, o mal-falado suporte de rabo repousava sobre a base.

Claro que em geral nos queixamos de que o esquecem em guarda, feito descolorido sentinela londrino, e, desavisadas, acabamos com a bunda na friaca, gelando as dobras de carne na fina borda da patente. Especialmente na madrugada.

Não era o caso.

Mais de uma vez já tinha me perguntado o que eu fiz para merecer essa maravilha de companheiro que jamais esquece o sanitário careca?

Justo ele que está sempre tonto de pressa e compromissos, abandona o zíper arreganhado, as cuecas ao vento, correndo como lebre da Alice: como é que lembra de garantir meu pedestal?

Ali estava a resposta: ele mijava com o treco abaixado. Não sentado, mas ortostático, feito Fontana di Trevi, mirando no alvo reduzido. E eu duvidando da capacidade da hidra, chamando técnico para revisar a descarga que vazava, mas só de vez em quando. Não se descobria o defeito.

Elementar, minha cara: aqueles pinguinhos não eram água.

Desci o sarrafo em forma de discurso eloquente para demonstrar a gravidade da situação.

Fui-me berrando de dedo em riste e perguntando se não bastavam as danceterias e seus toiletes públicos, para onde marchamos com saltos e plataformas monumentais.

Imagina que o banheiro feminino é mais organizado e sanitizado que o masculino? Nunca! Porque mal sabem vocês, os cabras, que nossos sapatos não apenas elevam os traseiros à lua contrariando a gravidade, mas também são galochas para atravessar o pântano que respira no Water Closet. Eu te explico, já que está com cara de interessado. O habitat natural nasce graças ao efeito borboleta de nosso hábito urinário.

Funciona assim: a primeira moça entra no quadradinho, desveste as calças justas que mal permitem mover as pernas uma vez deprimidas à altura das coxas; ela não se apóia em nenhum lugar com asco da latrina; inicia a descida com o quadril e pára a 45 graus; numa festa, bêbada, a mulher quase faz xixi de pé; e começa a tremer durante o agachamento prolongado; então ela tenta, em vão, jorrar o líquido áureo com algum controle; a seguir, livra-se do papel higiênico porcamente, pois está louca para sair dali. A segunda senhorita, precisará vencer os obstáculos herdados da primeira; à terceira miss caberá a árdua tarefa de desviar dos destroços da segunda e assim por diante. Às três da manhã, tcharans: eis o atoleiro.

Não chega para você que tenhamos a uretra mais curta, a bexiga mais cheia, a insalubridade dos absorventes descartados, os canos entupidos pelos ob’s arremessados, o excesso de líquido que bebemos para diminuir o apetite, as filas intermináveis, os trocadores com bebês e fraldas feito brejos nos shoppings, nos supermercados e até nas igrejas.

Nãããão. Que sorte a minha contar com você para garantir que a saga se perpetue dentro de casa.

Pois foi assim. Jurou que era a única vez, era inédito. Foi apelar ao filho, pediu confirmação do Vicente que saiu dizendo que ele faz isso só umas cinco a cada dez vezes.

Ok. No Vicente eu acredito. Afogo só metade. 50%. É justo.