terça-feira, 30 de março de 2010

Só não vê quem não quer.

EPITÁFIO
Mais que tudo,
amava a diligência.





Notas rápidas sobre este assassinato:

Não sou contra adulações extra-açucaradas ao Bitols nos shoppings, no supermercado, na feira.

Não me chateia que digam que ele é O má-xi-mo, que o amam: tudo bem.

Eu entendo, está tudo certo, juro. Até aguento seu ego do tamanho de um zeppelin pelo resto da noite.

Não me incomoda que o beijem, que peguem autógrafos, que perguntem se ele é quem pensam que é.

Acho bonito que contem como ele mudou a vida de alguém, como um poema resolveu um mistério, como uma crônica desafogou um amor.

Adoro que ele seja representativo de uma geração, que ele seja a voz da alma feminina, que alcance o status de tradutor tipo um Chico Buarque, um Chico Xavier da asma, sei lá.

Admiro que ele seja provocativo, irreverente, um outdoor dos faceiros da vida; que ele seja o contra entre os contras; que ele seja a inversão inesperada do meu dia e que isso se estenda pelas portarias, pelos elevadores e pelos restaurantes que frequentamos.

Amo que o twitter dele tenha zilhares de seguidores, acredito que a ferramenta nasceu para a ponta de seus dedos ferverem e gozarem o teclado.

Quando vêm, ele fica garboso, estilo brilhantina, sorrindo autenticamente, (e pasmem!) quase tímido. É tão bonito. E sou feliz quando ele fica feliz. Eu não tenho ciúme de sua alegria.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é filha-da-putice.

Por exemplo, tudo isso que citei é muito diferente de domingo, na Fnac, onde fiquei salivando sobre os micros enquanto ele farejava os impressos.

Quando estava voltando, eu vi de longe - porque nessas horas, ardo por uma santa miopia que não tenho: lá granjeava a lambisgóia quiquiqui-cócócó; hihihi-hahaha.

A poucos metros; a alguns segundos de distância e eu já arfando.

Ela me viu de canto de olho e partiu em disparada pra outro lado.

- Que é isso, Fabrício? Puta-merda faz cinco minutos que saí daqui!

- Nada, ela só veio pedir uma dica de livro.

- Ahn, dica de livro.

Vou te dar um monte de livros para que possa olhar mais de perto.

terça-feira, 16 de março de 2010

Não Enxame o Saco!

EPITÁFIO
Açúcar demais
é veneno
.




Estava passseando pelo Twitter* no exercício diário de voyeurismo quando um retweet** me fisgou.

Fui avaliar a fonte e me deparei com várias orações dignas de respeito. Farejei o blog da tuiteira e acabei com um achado agradabilíssimo. Via-se que se tratava de profissional do ramo, cheia de florestamentos na linguagem, embora trafegando em paisagem claramente urbana, uma beleza!

Gastei o tempo nos bordados, curti o ambiente como num passeio bem acompanhado.

E que fotos bonitas! Ela surpreendia na desenvoltura das imagens porque era feia. Vamos combinar: era feia, mas que charme! De encaracolar o liso extremo dos meus cabelos. Quem dera posar desse jeito. Via-se que ela se sentia dadivosa na hora do clique.

Sentada na sala, apreciava o encontro quando passou o Bitols atrás do sofá. Louca pra partilhar a descoberta perguntei:

- Conhece a @xxx?

Empalideceu.

- Por quê?

Lasquei na hora:

- Tu comeu ela.

- Por que está dizendo isso?

- Comeu ou não comeu?

- Por que está perguntando?

- Ora, Fabrício, só queria contar que “descobri” a artista em questão no twitter e gostei muito. Você, estando fora dos eventos, culpadinho, já desatinou a se defender perguntando por que eu perguntava!

- Vai perguntar isso sobre todas????

- Não. Só quando for esse mal estar. Eu sei que é passado teu, nada a ver comigo… Eu sei, mas é que eu não queria notar isso estampado na tua cara quando a gente encontrasse com elas, sei lá!

- Ah, mas pra isso a gente teria que se mudar do país.

Mudar não dá. Mas matar, sim. E bem dolorosamente.

______________________________________________________________
*Twitter - Não conhece? Consulte a Wikipédia

** Retweet – quando um tuiteiro repassa aos seus seguidores um tweet que considerou interessante.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Suicício de Highlander

EPITÁFIO
Via dança e poesia
nas roupas do varal.




Drão, o amor da gente é como um grão
Tem que morrer pra germinar.
Gilberto Gil

Fabrício terminou comigo. Pela terceira vez. Terminou com berros, pediu para que eu descesse com suas coisas. Passava da uma da manhã. Faço questão de escrever sobre isso, assim empresto companhia a mim mesma (porque me senti uma palerma).

Nossa relação é intensa e divertida, ele é um quatro-em-um de gentilezas. Fabrício veio com bateria de lítio ultra-leve. Está sempre bem-disposto, sempre bem-disposto, sempre bem-disposto, sempre.

E eu, não.

Na noite fatídica, por exemplo, passava da meia-noite e eu ainda estava trabalhando. Foi aí que ele ligou.

A boiada estourou quando eu não mandei um torpedo avisando que estaria ocupada, para que ele não se sentisse rejeitado. Eu nem pensei nisso, esse tipo de coisa jamais me ocorre. De modo geral, imagino que o outro vai dar um jeito. Eu desisti há muito tempo de granjear elogios pelo excesso de cuidados ou parcimônias. Talvez isso tenha vindo com a medicina, embora não esteja me livrando da responsabilidade. Mas não vejo que isso seja falta de conectividade, apenas não penso o mesmo que ele.

Pior que isso: eu vinha pedindo a chance de brigar. Quero brigar e não falar mais hoje, amanhã retomar a conversa com o sono bem cumprido de escudeiro. Quero desligar antes de arranhar o disco. Quero pousar a xícara no pires para esfriar o chá.

De novo, ele não deixou. Sei que não é maldade, está mais para temperamento. Mas o fato é que assisti ao avassalador final da relação sabendo que iria se arrepender. A dúvida pesava sobre mim: e se eu não quisesse embarcar novamente? E se meu santo fechasse a conta? E se a aposentadoria viesse precocemente com a demissão?

No outro dia, recebi o torpedo dele requisitando itens específicos para a devolução. Coisinhas que eu não tinha reunido na madrugada. Camiseta do Inter, camisa da Cavalera, umas meias, uns troços.

Sonhei que quando ele chegasse, estaria com a laçada armada: enforcaria o diabo sacada afora.

Melhor que viver sem ele vivo, seria viver com ele morto.

Os restos de um amor pela casa estremecem a febre. Fervi durante cinco dias. Ele , por sua vez, já estava mais que pronto para voltar. Fabrício, além do lítio, tem adamântio por dentro. É meu Wolverine particular. Sempre bem-disposto. Consegue morrer tantas vezes quantas o amor precisar.

Eu, não.

Mas sou uma assassina de mão cheia.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Offline

Epitáfio
Gostava de entrar de
cabeça em seus textos.


Passeava pelo Facebook quando meu amigo querido que vive em Los Angeles apareceu online. O serviço de mensagem instantânea do Facebook é tão precário que só serve para convidar o contato para um encontro em outro programa. Foi o que fizemos.

Não entrava no MSN desde que eu e Bitols começamos a namorar. Logo no início, conversamos sobre como o messenger podia ser um covil de conversinhas que convidavam a outras conversinhas muitos piores. Combinamos aposentar os nossos.

Quando entrei no MSN para falar com o compadre dos states, estava cometendo uma infração. Escolhi o modo “invisível”. Verifiquei meus contatos bloqueados do passado sorrindo enquanto chateava com o amigo querido de LA. Qual não foi minha surpresa quando vejo o nick de Bitols atualizado informando o twitter dele?

Quando isso tinha acontecido?

Meditei a respeito. Como poderia cobrar a brecha se eu também quebrava a promessa? Formulei um plano rápido. Resolvi twittar que estivera no MSN. Pus assim:

Entrei no MSN. Não tive coragem de sair do invisível, no entanto. Achei que ia ser uma chuva de: oh, está viva. Não quis passar vexame.
4:47 PM Feb 19th from web

A isca funcionou perfeitamente. Bitols escreveu um email comentando a twitada.

oi amor
aquilo que tu sentiu hj no MSN acho que eu também sentiria.
mal entraria, e todas as janelas diriam:oh!
ficaria constrangido e logo invisível.
faz um tempão que não entro. não dá para mexer no passado.
beijo
Bitols

Bingo. Ele também lembrava da promessa. Feito o barraco:

- Que história é essa do senhor ter andado no MSN?

- Eu te falei, amor, dei aquela entrevista.

- Que entrevista?

- Aquela para a Bahia. Foi via MSN. Eu te falei.

- Falou porcaria nenhuma! Que conversa foi essa de melhor não provocar o passado? Que passado? Não bloqueou teus contatos?

- Mas eu não sei bloquear!

- Ah, não sabe? Não sabe clicar com o botão direito?

- Juro! Não sei! E depois, acho “bloquear” tão forte...

- Quer dizer que o senhor deu a tal “entrevista” com mil contatinhos gritando: “Canalha”, é você?

E aproveitou para deixar teu Twitter para as mocreias.

Deixa pra mim. Vou ensinar a bloquear no computador.