EPITÁFIO
O amor é um crime
que nunca fica prescrito*.
*@carpinejar
Eu acredito em amor defeituoso, corcunda de Notre-Dame, cheio de calabouços e górgonas, além das esmeraldas; de estrada tortuosa, de vexames e chuva de granizo. Amor de verdade, pra mim, tem que ter geografia completa, cartografia generosa e acidentes de percurso. O modo como percorremos é que nos define.
Mulher perdoa, mas não esquece. Homem esquece antes mesmo de ser perdoado. Acho que querem nos influenciar.
Mulher tem dessas coisas. Luta como louca pra deixar a lembrança afogada no calendário; amordaça a raiva daquilo que ele disse pra seguir adiante; parafusa o caixão prendendo o zumbi. Mas o fundo é falso e se remexe. O que não mata, depois enche o saco.
Já o homem, sem nenhum esforço, sem uma gotinha de suor, apressa a amnésia. Não gosta, apaga. Simples assim.
Gorda auto-indulgência que eles se oferecem. Pelo menos o Bitols.
Quando começamos a namorar, ele recém estava saindo de casa. Eu caí de paraquedas no meio da confusão mental, em plena epilepsia do divórcio. Meti a colher para segurar sua língua. Ergui meus bálsamos de apaixonada e fui tratando de engolir os achaques, as crises, as maledicências. Haja digestão:
- Foi perereca, rã, salamandra, sapo-boi, sapo verde, marrom, papudo, vermelho, da indonésia.
Fiz de um tudo para ajudar durante a tormenta, crente na bonança. Ele mesmo me alertou que consistia em fase trêmula, exigia cuidados extras, caprichos de convalescente. Prometeu que me levaria no colo quando chegasse minha vez de precisar.
Vantagem das fases críticas é que estaremos mais juntos depois. No amor, as contrariedades viram remuneração. Persistência é a moeda corrente da relação.
Décadas mais tarde, chegamos ao dia de hoje.
Era natal, estávamos no banheiro, eu lá esculpindo o Ho-Ho-Ho na cabeça de Bitols. Zummmmmmm entre os cabelinhos. Daí, o ruído foi ficando bêbado.
- Carregou o barbeador?
- Sim, ontem, toda a tarde.
- Ué? Acho que a bateria está ficando velha...
- Ah, nem diga! Adoro esse aparelho, um dos melhores presentes que me deu. E foi dos primeiros, né?
- Claro! Você dizia que ia fazer a barba na tua ex-casa quando fosse buscar teu filho, que não tinha barbeador em Porto Alegre, que o teu era 220V, que eu não me preocupasse, que o que é que tinha?, você poderia fazer a barba quando fosse lá, que limparia tudo, qual era o problema?
- Imagina. Nunca disse isso.
- Não se lembra?
- Não.
E ele nem lembrava.
* Obrigada Luizão, pela adorável sugestão de morte.


Mulheres são XX. Homens são XY.
ResponderExcluirUm Y é um X, em que falta uma perna;
Assim, homens são seres faltantes em relação às mulheres.
Isso tudo pra dizer que a gente perdoa a falta de memória deles. Ou o excesso de esquecimento.
O que é ótimo, porque eles se entregam, muitas muitas vezes.
Ah, e feliz natal! O cartão ficou lindo.
ResponderExcluirEles nunca lembram...
ResponderExcluirtenho uma sugestão de morte pro ano novo: vamos supor que um dos fogos de artifício estourou perto da cabeça dele...
adoro seu blog,
abraços!
Eles tem a memória curta mesmo, nunca lembram de nada, só do que os convêm!!Bjos Cinthya.
ResponderExcluirNo amor, as contrariedades viram remuneração. Persistência é a moeda corrente da relação.
ResponderExcluirAi, ai Cinthya. Alguém que como eu está sempre com o desfibrilador em punho. Vai que o coração pára de bater?
Adeus, ano novo!
ResponderExcluirAna SS,
ResponderExcluirsão as diferenças que fazem a aventura, né?
Beijão!!
Tamyle,
ResponderExcluiradorei! Só resta saber se ele vai aprontar até a virada...
Juliana,
ResponderExcluiré... É assim mesmo.
Ainda bem que tem o resto pra gente gostar.
:) Beijo!
Lis,
ResponderExcluirquerida,
beijos beijos beijos pra você.
Por que vc faz poema?
ResponderExcluirNão entendi =\
Muito Bom!!! E viva as diferenças! Mas eu acho um absurdo quando a memória deles falham! hahahaha #brincando
ResponderExcluirAdoro esse espaço! Adorei o cartão! *-*
Ótimo 2011!
bjão
Muito bom o texto, adorei a simplicidade e o humor. Foi com cumplicidade que li.
ResponderExcluirBeijo!!!
Oi Ana,
ResponderExcluirsim, sim, eu tb: absurdooo! XD
Beijo!!
Oi Xará,
ResponderExcluirbom demais. #tamojunto
Beijo!
Olá, Cínthya
ResponderExcluirAcompanho o blog há algum tempo e gostaria de agradecê-la pelo que escreve, pois a leitura de seus textos traz muito alívio para pessoas como eu, que não se permitem expressar seus pensamentos mais sombrios mesmo em situações de ultraje ou extrema frustração. Também tenho um namorado que às vezes me tira do sério, e inspirada por este blog, cheguei a compor uns versos sobre a morte dele. Mas, por algum motivo obscuro, ali deixo que o acaso se encarregue de aniquilá-lo, pois eu não saberia fazê-lo, nem sequer literariamente...
Abraços!
VALA COMUM
ResponderExcluirPois bem, que venha o momento!
A redenção mais escandalosa e singular!
O dia em que na banalidade cinzenta das vivências espúrias
Eu possa me dizer discretamente, olhos cerrados
Quase inconsciente
Quase após o soluço por excesso de bebida
Talvez por um tropeço das sensações há tanto adormecidas
Um suspiro de cansaço pelas eras gastas em companhia inadequada
Um espasmo de prazer em meio à orgia do laissez-faire
Quase uma música mal executada no piano antigo de uma sala suja ao longe
Quase um deslize no sopé da encosta
Um embrulho barato esquecido no saguão do aeroporto
Quase um lapso, um chacoalhar de mercadorias suspeitas no porta-malas
Um despencar de pálpebras em meio ao visgo da voz do palestrante senil
Quase nada que possa ao menos ser lembrado no ócio dos domingos passados em sépia
Enfim, nem o esforço de dizer eu farei...
Pois algo nos confins de meu espírito despertará languidamente
E com uma voz repleta de ternura e de fastio
Talvez redefina o meu estar no mundo
Ao mero sussurrar:
"A partir deste instante, meu amado
Estarei de pleno acordo com Morte se,
Casualmente,
Ela o vier arrebatar na mais radiante das manhãs".
Aliás, qualquer dia servirá
Qualquer hora dessas, como dizem
Qualquer fim serve bem aos que vivem
De arruinar a vida do próximo,
O mais próximo
Aquele a quem chamam por diminutivos aviltantes
Quando os baixos instintos apelam
Quando as fundas carências suplicam
Um instante de vil entretenimento às custas da tolice alheia.
Sim, tudo parece tão certo...
Entretanto, saiba disto:
Cada dia é após o outro deste lado do pensamento.
Imagino com precisão o contorno de seu corpo
Gélido, opaco, estendido em metálico leito
A receber os cuidados do legista carrancudo...
Penso no sangue coalhado,
No rigor mortis,
E mais tarde visualizo um singelo funeral...
Últimas homenagens de parentes e conhecidos
Indulgentes comentários
Últimas pás de terra em meio à comoção habitual.
De minhas mãos, cravos murchos cheirando a mágoa e mofo
Fantasias sublimes desfilam pela mente entorpecida
Embaladas pelo farfalhar dos eucaliptos
As variadas desventuras que poderiam ser a sua...
Apenas imagino
E isso por si só me satisfaz.
Morto acidentalmente ao cair no fosso do elevador que não se encontrava naquele andar
Morto por causas naturais
Morto por razão desconhecida
Morto por infecção hospitalar
Morto à queima-roupa pelo assaltante ensandecido
Morto ao ser atingido por um raio
Morto por asfixia
Na escada de incêndio enquanto fugia
Morte encomendada
Morte assistida
Morte por envenenamento acidental
Morte induzida por narcóticos... Tentativa de suicídio?
Não haveria nele dignidade para tanto!
Morreu por atropelamento, simplesmente
Ao se distrair com um rabo de saia que passava na margem oposta da avenida...
Ora, querido, grande serviço poupado
De lançá-lo ao abismo do esquecimento
Ao imenso tanque dos dejetos demasiado humanos
De onde surgiu sua pífia linhagem
Um brinde à sua inexistência
Agora tão concreta
Requinte último para a libertinagem de minhas insanas despedidas.
Haja braços para tantas bananas que lhe mando
Neste inferno que é o mundo e Além!...
Nada como um dia após o outro...
E retifico:
Cada dia é após o outro deste lado do sentimento.
Ao final da confissão em delirantes semiversos
A sordidez que mal possuo me assusta, então desperto
Estou só e de saída
(A idéia de um crime será crime?)
Pouco importam os solavancos na partida
O dissabor de outrora já passou
O Amor está morto, viva o Amor!
Essa tua ilustração do trenó enforcando o teu bitols tá muito engraçada!rsrs
ResponderExcluiré, até mesmo a lembranda inveja a felicidade ;)
abraço e feliz 2011!!!