segunda-feira, 12 de abril de 2010

Piromania

EPITÁFIO
O Fogo não depende
de roupas de baixo.


Acordou sábado e gritou do quarto. Como uma urgência no closet, um infarto nas prateleiras:

- Preciso comprar cuecas!

Primeiro, não dei bola e continuei o café. Mas ele deu sequência:

- Não tenho mais! Não sei onde estão as cuecas. Acabaram? Sumiram?

- Sei lá, Bitols.

- Já vasculhei na casa da mãe. Minha esperança estava nas tuas gavetas.

- Tá bem. Que drama. A gente compra cuecas.

Como não dei importância, saiu à cata de meu irmão. Achou um compadre. Discorreram sobre o tema das cuecas velhas, que gastavam, que sumiam. Filosofaram sobre o sinal de maturidade masculina que é poder comprar as próprias roupas íntimas, debateram sobre as grifes e os modelos. Relembraram a infância das sungas, a jovialidade das boxers e trocaram minúncias acerca dos tecidos sintéticos.

Logo mais, antes do almoço, fomos aos salão. Chegando na manicure, pedi:

- Bitols, vai comigo no posto fazer minha vacina?

- Tá, mas eu preciso ir comprar cuecas.

Mas que merda de história de precisar urgentemente de calçolas era aquela? Comecei a desconfiar. Por que não foi no mês passado? Por que não pensou nisso antes? Por que não lembrou nem no auge do verão? Um pouco mais de meditação e concluí:

- Ah, sim, o senhor vai viajar a partir da próxima semana e pelo mês todo! Quer fazer um tour cuequístico pelo Brasil. Canalha!

- Como assim, amor?

- Mas é óbvio! Como não vi de cara? Tu quer motivo pra tirar as calças com orgulho. Escuta aqui, Fabrício, eu, quando sabia que ninguém ia ver, não combinava calcinha e sutiã, não. Ia de time misto. Time misto é a prova da boa intenção. Cueca velha é o time misto do homem!

- Não é isso, amor, são para ti.

- Pra mim? Pois se é assim, de cueca eu tô legal. Quanto mais velhas e mais descoloridas, mais me sentirei amada.

Ele riu, afirmou-me paranóica e assumiu que poderia deixar para a volta, tudo bem.

- É, pode ser.

- Tu tem as calcinhas mais bonitas sempre, nunca te acusei por usá-las fora da cidade!

- É, pode ser.

Eu fui me acalmando. Terminei rindo com a Val enquanto ela esmaltava as unhas e me apoiava. Cochichou:

- Não deixa viajar de cueca nova jamais!

Confessou que seu o marido não recebia essa liberdade. No minuto final, ela abria a mala e fazia a troca. Tinha um fundo falso de peças íntimas puídas e manchadas só para o caso.

Voltamos em casa para resgatar meu irmão e fomos comer. Dentro do carro, a comédia voltou a baila. Bitols quis garantir o apoio machístico para a desforra final da minha suposta vã desconfiança. Meu irmão, fanzoca de um deixa disso como poucos, saiu com a pérola:

- É claro! Imagina, muito pior seria ele voltando de São Paulo com as cuecas novas.

- Claro, imagina. – apoiou Bitols.

É claro. Mas pra que imaginar se a gente pode lembrar do moço em questão CHEGANDO com várias cuecas novas da última viagem.

36 comentários:

  1. Sou a favor da viagem com as cuecas velhas, mas sou geminiana né?Nada extremista!hahaha
    Muito bom seus textos sempre.
    No twitter sou a @marquesinhaaa

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  2. enquanto eu ia lendo, ia imaginando onde ele esqueceu/deixou/deixaria as cuecas...

    ficarei calada!

    obs: saiu uma entrevista do Fabrício na revista da minha faculdade, CONEXÃO (março/abril - 2010) nº 34. Ele conta sobre o livro TWITTER.

    adorei!!!

    TE ADORO CINTHYA!!
    beijos

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  3. hahahahaha!
    adorei o texto, vou enviar para o maridão, ler!
    Fiquei lendo teu texto e relembrando, quando morávamos em casas separadas: Seguido o Alexandrico vinha com este papo: Mor cadê minhas cuecas, será que teu irmão pegou? Risos...
    Agora quando ele me pergunta algo, ou diz que elas sumiram das gavetas, eu apenas resmungo ninguém pegou muito menos eu!(afinal só moramos eu e tu neste ap)
    Ótimo como sempre!
    Beijos, Pam

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  4. Nada de cuecas novas!!! kkkk Adorei! :)

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  5. Cínthya

    Já vi esse filme...por precaução somente EU compro as novas e claro, contadas uma a uma e devidamente guardadas para serem usadas exclusivamente EM CASA. Para viagem, as destruídas...com certeza!

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  6. Que piração "as roupas de baixo "na mala viram uma mala....não importa se são usadas ou novas,o perigo é quando estão perfumadas ou com um cartão de visita , de representações com cel no verso...
    Cremação é a pedida!!!e as cinzas no açucareiro!!!

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  7. "Time misto é a prova da boa intenção"
    auhauiahiah rindo litros, amei o texto.
    Diz pra ele se comportar pq ele vai, mas vc fica aqui né gata? hahaha

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  8. Marquesinhaaa,
    geminiana extremista?
    Nada, é só doce, né?
    (é pra quem pode;)
    XD Beijo!!

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  9. Lalisse,
    melhor nem pensar. Deixa quieto.
    ;)
    Enfim, o livro Twitter dele é super.
    Que bem que me adora!
    Beijo!
    Cín

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  10. Pam,
    e o mistério das cuecas só muda o endereço. São os duendes (e duendas).
    XD
    Beijo!!

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  11. *L’essentiel est invisible pour les yeux*,
    melhor a gente ficar de olhos bem abertos.
    ;)
    Beijo!

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  12. Anônimo,
    depois do evento, comecei a contar as cuecas e manter sinais secretos na barra para controle.
    ;)
    Beijo!

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  13. Pessoa,
    cinzas no açucareiro é ótimo, eu não uso mesmo.
    ahsuahsuhash
    Beijo!

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  14. Mayara,
    sim, sim, eu ficarei.
    aushuashuashsauhsuhas
    Mas não espalha.
    ;)
    Beijo!

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  15. Hahahahahahahaha, adorei o trocadilho e o desenho e o texto...hahahahaha
    Essa manicure vale ouro...rsrsrs

    Bjs!

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  16. Você sabe descrever como ninguém as situações!! Aliás, vocês dois! Sou fã do casal!
    Ainda bem q meu marido só usa samba-canção, ele tem alergia das costuras das tipo zorba! huaihauihahiuaha =*

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  17. Maria Tereza,
    adorei esses óculos!
    E que bem alguém que só usa uma sambinha...
    E no início tu achou até um pouco estranho, né?
    ahsuahuhsuahs
    Beijo!

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  18. Carpinejar veio à BH na Terça. Por que você não veio junto??? Eu e meu namorado gostamos muito das obras dele e eu adoooro seu blog. Você também escreve muiiito bem!

    Abraço, Nathália

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  19. Oi Nathália,
    quando o Bitols viaja em dia de semana é muito difícil pra mim. Minha agenda é bem apertadinha, as coisas aqui na clínica exigem atenção. Quando cai em fim de semana, eu vou sempre que cabe no orçamento.
    É assim.
    Mas adorei que queriam que eu fosse ;)Tô louca pra conhecer BH! Ele sempre volta encantado daí.
    Beijãozão

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  20. gostei!
    Leve e descontraido!
    Sutil drama-comdédia, afinal é um drama engraçado a filosofia do comprar novas cuecas!
    conheço bem por ai!!!

    parabéns pelo belo jogo de palavras!

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  21. D Dantas,
    me alegra que tenha gostado do jogo de palavras, eu me diverti fazendo.
    Beijos!

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  22. "O fogo independe das roupas de baixo"
    ... e como eu sou um ser vibrando força e beleza cósmica, sequer as uso nas viagens...
    E, para o frio, cobertor é ferramenta de amador...

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  23. Para aquelas que insistem com seus excelentíssimos que guardam as camisetas e cuecas puídas e furadas isso vai servir como argumento... prova de boas intenções?!! Rindo muito!!! Teus textos são muito bons!

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  24. Houston, we have a problem!!! Cynthia, já que você não matou a bailarina pra mim, poderia aceitar a encomenda de um desenho, né? Entra no Fermata Café... bjs

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  25. Cínthya querida...você é muito bonita e extremamente simpática, obrigada ela atenção e o carinho hoje na Livraria Cultura.Adorei.
    Bjos aos dois amados.
    Juliana.

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  26. Oi Cinthyia!!!!
    Adorei o seu blog!!!! rsrsrs Adorei o texto, o desenho, tudo perfeito!!!!! rsrs Deixar o namorado viajar com cuecas novas nem pensar, mas concordo com seu irmão, rsrs, pior seria dar de caras com cuecas novas na volta... rsrsrs
    Beijão!!!! Parabéns pelo blog!

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  27. Oi Juliana,
    vocês são adoráveis!!! :)
    Beijos!

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  28. Oi Ana...
    mas eu já DEI de cara com cuecas novas na volta!!!!
    Por isso que matei o diabo.
    ;)
    Bjk

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  29. Carpinejar vem a Lajeado em agosto, fazer uma palestra para pais, na Feira do Livro. Ja que vc gosta de viajar com ele, venha junto...seria otimo conhecer a dona destes textos espirituosos..Vou passar por aqui sempre. Será meu mingau diário. Bjs

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  30. um bom tipo de morte seria guilhotina

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