terça-feira, 14 de junho de 2011

Doutor Spot

EPITÁFIO

Dizia, pois,
Ouvir estrelas.





Duas coisas são impressionantes: o carinho das fãs do Bitols e o carinho do Bitols com suas admiradoras.

Alguns exageram dizendo que não existe relação entre obra e adorador, que não passa de ilusão. Estes céticos afirmam que o leitor vê com a lente de suas próprias coisas, da história pessoal e projeta em quem escreve o que bem entender.

Acontece que o Bitols dedica a vida para gerar, escreve pensando em quem vai receber, em proporcionar um tempo de experiência, uma aproximação. Tudo o que ele quer é que se identifiquem.

Ou seja: sim, é de propósito e, ao mesmo tempo, é sincero.

Eu mesma lia Carpinejar. Classifiquei O Amor Esquece de Começar como “maravilha”. Fiquei impressionada com a abundância de frases fortes, com o pensamento estruturado e inteligente. Gostei que ele visse as coisas pequenas com humor e sensibilidade. Mas, de resto, achei meio meloso, não fazia muito meu estilo de homem.

Algumas mulheres, ao contrário de mim, descobrem nele a bíblia de si mesmas.

E que beleza! Pensa quanta terapia economizam! Alguém traduzindo o que a gente se embaralha?

— Genial.

Eu entendo: é como um amigo íntimo. Daí elas pedem fotos e abraçam e nada me incomoda ou constrange.

Só tem uma coisa que eu detesto: quando ELE não se dá conta. Sério. As moças eu acho dez. Não, vinte. Acho super lindo e bacana.

Nunca fui de ter ídolos, exceto o Mike Patton. Se bem que não era beeeem um ídolo, quero dizer, era mais um tipo de vontade de ficar com ele. E não me deixaram ir no Rock in Rio que ele veio. Pior: meus pais me levaram para passar o verão na barragem onde nem TV pegava direito, quanto mais pegar o Mike Patton.

Enfim, se eu fosse ver o Mike Patton, não ia querer que a mulher dele ficasse por ali (ele não tinha mulher, mas enfim, se tivesse hipoteticamente). Ia ficar envergonhada de abraçar e tals. Pensando nisso, há uns tempos decidi que sair de perto é melhor, fica todo mundo mais à vontade. Claro, contando que ele VAI ter noção.

As senhoras e senhoritas carpinejáricas estão em seu direito irrevogável de tietes, certo? Ele é quem tem que manter a porra da compostura.

Acontece que o Bitols é muuuuuuito gentil. Muuuuuito legal. Muuuuuuuuuito cavalheiro. Isso pode ser confundido, já conversamos eu e ele sobre este comportamento e, para dizer bem a verdade, que saco ser governanta da etiqueta! E depois, é tudo problema meu — ele não tem problema com isso.

Quando a gente saiu de um show esses tempos, as garotas já estavam eriçadas, né? Pelo show, quero dizer. No saguão, viram o Bitols e fizeram gritedo, alguns grupos vieram, elas vêm em geral em mais de uma. Aí, eu fui saindo, como eu disse que faço, para eles se curtirem. Ficaram fazendo fotos. Eu dei a volta, desci as escadas indo ao estacionamento buscar o carro.

Ah, também! Eu que não me virasse para trás — assim não virava estátua de sal de fúria mortífera:

— Lá estava Bitols descendo uma de suas apreciadoras da mureta. Sabe? Aquele estilo Dirty Dancing, pegando pelo sovaco e baixando pertinho do corpo, apoiando com o tórax.

Patrick Swayze tupiniquim.

Uuui, que ódio. Vai ser gentil assim no inferno.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

E depois voar no azul/ Cruzar de norte a sul/ O céu e o mar.

EPITÁFIO

Na infâcia, guardava
uma pena de ganso no estojo.




A melhor coisa do universo é viajar junto com nosso amor. E não existe companheiro de viagem como o Bitols.

Nada a ver com o George Clooney do Up in the air (ou Amor sem Escalas): Bitols não faz o tipo prático, apesar das milhas de milhas acumuladas. Ele é mais o sujeito populista: suas filas no detector de metais, por exemplo, imitam as do SUS ― centenas de pessoas aguardam a remoção parcimoniosa do relógio, dos anéis, do cinto, dos sapatos ou dos suspensórios. Ainda somando contra a praticidade, suas malas pesam como se carregassem um cadáver e as viagens são tantas e tão curtas que dão nó nas pernas. Parece desagradável, mas não é. Não tem companheiro de viagem como o Bitols: ele se supera.

Cheio de gracejos, é mais conhecido que o Lula em aeroportos. Faz piadas com carregadores, porteiros, jornaleiros. O bom humor contagia a todos. Os óculos tipo mosca coloridos, a fala esquisita, as roupas lindas de escândalo: tudo favorece.

Tem mais: traz no mínimo cinco livros, sempre emprestando o que eu pedir. Às vezes, algum ganha carona só porque ele pensa que eu poderia querer. O laptop vai de bateria cheia e com filmes para vermos juntinhos dividindo fones de ouvido. A conversa é a melhor que existe, se a onda for de bate papo. E pra dormir, é o ombro mais cheirosinho, especialmente agora (Bitols completou vinte semanas sem cigarro).

Claro, tem a chatice de avião brasileiro. No último trecho, por exemplo, nosso voo era pra durar uma horinha. Mas aí é tudo lenda: demorou pra sair e, quando finalmente saímos, terminamos dando voltas pelo céu e aterrissando em Floripa ao invés de Porto Alegre.

Dentro dessa maratona, depois de dormir e ler e fazer tudo o mais possível pra evitar  o horror do banheiro da aeronave, não me restou outra saída: fui encarar o cubículo hiperaproveitado.

Quando voltava ao assento, vi que Bitols não estava.

E não vinha, não vinha... Ué?

Dali a pouco chegou o faceiro, rindo, abanando com as duas mãos. Olhei bem, tinha uma mancha preta bem em cima do... Bem, por sobre a braguilha das calças vermelhas estava uma roda preta de tinta.

― Que é isso, Bitols?

― Bah! Vazou a caneta, fui lá tentar limpar.

Então passou a aeromoça loirota, toda florescente e folgada:

― Como é que ficou? Borrei muito?

Come again (ou Cuméquié)?

Como assim "borrei muito"? Sério. Cinco minutos urinando. Um simples xixizinho. E o Bitols já estava de kikiki-cócócó com a copeira do ar?  Já imagino o projeto de governanta aérea esfregando a zona pubiana do Bitols.

Aí sou compelida a me agarrar na poltrona, torcer pra que ela flutue e facilitar a saída de emergência.

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Este é o filme do Clooney


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Leia aqui a versão de Bitols sobre o dia da caneta estourada:

Eu senti o apego durante um voo de volta a Porto Alegre. Estava com um terno cinza, retrô, escrevendo no caderninho e, de repente, a caneta estourou. 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Debaixo dos Caracóis

EPITÁFIO

O cimento não pergunta
o tamanho do pé.



Sempre admirei o processo criativo de Bitols. Leva menos de uma hora para escrever uma obra de arte.

No início, surpresa, pedi explicações do superpoder. Com naturalidade, respondeu que ir ao computador é a última coisa. Primeiro mastiga a ideia, namora sentenças, vivencia os conceitos, testa os ditos com amigos, com familiares, com o público em geral; depois registra as orações. Dorme sobre o assunto, acorda para a literatura. Quando chega a hora de derramar sobre as teclas, é muito veloz de chuva, basta digitar o que está pronto para servir. Depois, é só revisar, trocar repetições: filigranas do papel.

Incrível mesmo e é verdade. Todo o tempo caçando temas, paquerando novidades, bebendo história alheia, sugando piadas e reviravoltas. E digitando exageros, claro. Bem a seu estilo próprio.

Esses dias mesmo, contou que a editora da revista telefonou pra dizer que seu texto sobre a Gisele estava exagerado.

- Exagerado?

- É… Disse que estava meio demais.

- Hum.

Então fui conferir o tal artigo. É coisa de sete ou oito mil caracteres.

- Levou quanto tempo pra escrever, Bitols?

- Ah, umas duas ou três horas.

- Que the flash, hein?

Então fiz um cálculo rápido de quantas noites mais ou menos o Bitols vinha dormindo, comendo e respirando a Gisele pra permitir a formação da calamidade pública que é aquela coluna: deu uns dois séculos de punheta.

Sério. Nenhuma namorada no mundo deveria saber o que seu namorado realmente pensa sobre a Gisele. Eu sei que ela é linda e tals, não está em discussão a formosura da estimada conterrânea.

Mas uma coisa é saber que ele acha a alemoa deslumbrante em adjetivos gerais, sem maior gravidade. A questão é quando a gente descobre que outra mulher é sua diva, seu mantra mais demorado na língua.

Não é que o Bitols nunca tenha escrito sobre mim na Cláudia, sejamos justas. Verdade que publicaram uma cartinha de amor “coisa mais amor” que fez pra mim. Pouco mais de mil caracteres, bem gracinha, contando que gosto da Fafá de Belém.

Mas é que a Gisele do Bitols “é a perfeição da poesia superando o resultado da lógica”; “é a saudade de uma vida simples. Uma vida descomplicada. Sem censuras e ameaças”; “ela não é tudo, pode ser tudo, que é muito melhor”; “é o ideal do cotidiano. É a exuberância do comum”. E complementa: “Gisele Bündchen exige mais e mais atenção e não enjoamos”.

E muito mais você encontra na declaração explícita que o meu namorado fez para ela na revista feminina mais vendida do país.

Tudo bem: a gente tem que viver com as divas paralelas na vida deles, tá certo que sobre para elas todo esse sonho enquanto a gente suja a louça em casa.

Sobrevivi à leitura. Mas ele não.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ai-bota-aqui-o-seu-pezinho.

EPITÁFIO

Nunca lhe faltou 
aquela mão amiga.



Fim de semana na serra é diversão para toda a família. As crianças, carregadas de chocolate, brincam, brincam, brincam, brincam. Os adolescentes, graças ao wireless nas pousadas, não se alteram. Os adultos caem nas piscinas de ofertas. Liquidação de verão no outono gaúcho é pura simpatia.

As lojas montesinas guardam charme: uma elegante loja principal plus um outlet. Marca que se preza tem balaio gigante com preços de fábrica a uma quadra de distância do showroom. E a turistada ama um balaião. Todo mundo se engalfinhando para ter certeza de que está comprando pelo menor preço. Chegar ao caixa é a vitória dos mais fortes.

A qualidade é indiscutível: do artesanato à tapeçaria, dos couros, que são chamados “pele”, à moda para motociclistas passando por lãs e linhas firmes, bem costuradas, bem cortadas.

Sendo assim, preço e produto estão ok. O atendimento é que está em jogo. Parece que estão te fazendo um favor. A gente entra na loja e fica lá jogado às traças, num estilo “compra aí e não incomoda” ou “não quer levar, não tô nem aí”.

Contra esse tipo de comportamento, o Bitols tem estratégias especiais. A bem da verdade, Bitols adora mexer com garçonete, gerente ou revendedora Avon. Estou ciente.

Fim de semana em Nova Petrópolis, por exemplo. Fomos pegar uma chuva no topo das montanhas - porque chuva nas montanhas faz sentido. Entre as coisas de fazer na serra estão as compras, como eu vinha dizendo. Na primeira ponta-de-estoque, Bitols já saiu interpretando o olhar blasé da balconista:

- Que houve? Tá triste?
- Não...

- Está sim. Por que essa cara triste? Problemas de amor?

- Não...

- Se não é amor, então é dinheiro. Pode chorar, vai: chooora... - completa avançando e emprestando o ombro pra moça.

- É que deu tudo errado hoje! O celular estragou, meu carro não veio do conserto, meu computador pifou...

O conversê rendeu mais desconto ainda. Saímos do container-loja com dezenove peças de roupa.

Por isso mesmo é que não critico a alegria, o jeito de “sou amigo”: descola muita risada e ainda gera dividendos.

Já que a população de comerciantes serranos é mais mal-humorada que bartender de aeroporto, o morro virou prato cheio de piadinhas e mequetrefes mil. A cada estabelecimento, Bitols foi-se empolgando. No fim da tarde, chegamos aos esperados calçados:

- Ah, mas esses sapatos são feios.

- Depende do gosto! – respondeu a alemoazinha chinfrim.

- Não chooora: são feios! Só gosta quem tem mau gosto. – foi afirmando o lambisgóio-mor enquanto pegava a mãozinha germânica, branquela e fria.

Ficou lá de mãos dadas com a vendedora. E eu lá de pata choca.

Vez em quando dá beijinho em demonstradora, abraça e fica se balançando com as atendentes. Tudo bem. Mas mãos dadas? A suprema intimidade de um casal? Não aguento.
Fala sério. Comigo não tem desconto.

domingo, 6 de março de 2011

Conficções: o doce veneno do escorpião.

EPITÁFIO

Por dentro dos cabos
estavam os nervos.





Bitols é tão espirituoso que às vezes desejo que desencarne. Ambos sairíamos ganhando: ele estaria com os seus e eu ficaria livre de assombração.

Sou uma pessoa com alguns conceitos. Não acredito que seja fácil conviver comigo, chego a ter obsessões com algumas palavras, termos que signficam isso ou aquilo:

- Responsabilidade, grandiosidade, culpa.

Em resumo: eu falo um dialeto.

Não aconteceu de graça, não foi de uma hora para outra: são frutos dos anos de consultório e de trabalhar com a psico-análise. Acabei abraçada em algumas âncoras.

Por exemplo, não economizo em aplicar “loucura”, “fiquei louca” ou “louco”. Não uso como quem aponta um crime, mas também não lanço à toa, como um xingamento. É mais um diagnóstico simples, para lembrar a mim e aos meus que a gente visita a completa desorganização várias vezes ao dia.

Quando digo que “acho que isso está adoencendo teu filho”, “mentir assim é de enlouquecer qualquer um” estou falando sério. Bitols não gosta nem um pouco. Acha um saco, na real, o plantão selvagem e gratuito.

Tá bem, é xarope. Mas xarope nasceu para aliviar a tosse. Vou usar minha medicina especialmente com os que amo. Não topo assistir um deles se envenenando de risólis frito em óleo cancerígeno e não falar nada. Isso é negligência. O mesmo vale para quando vejo Bitols encobrindo que um filhote não deu a descarga. Acho “super-pai” o Ó.

Caçoo e chamo de Bob pai e Bob filho.

Deve ser um porre a presença de um padre cerceando os pecados, vai ver que é por isso que não casam e nem têm filhos. Adoro um púlpito e mereço a chacota; mas também ajeito as feridas, os arranhões, presto para indicar pomadas, prescrever comprimidos, tratar cólicas e dermatite seborréica.

Por isso é que fiquei fula, mas fula mesmo, quando o Bitols foi num programa de TV aberta praticar um dos seus retanches de escorpiano. 

Ah, eu estou sabendo que ele não tem compromisso com a saúde de ninguém, que está nessa vida pelo melhor do texto. Ele vai sacrificar qualquer compromisso com a verdade em nome do grande efeito. Já senti na pele - precisamente porque ele é genial no convencimento. Na hora do romance, nada supera seu discurso. Na hora da discussão, é um orador de primeira. Briga de cachorro grande, como descreveu minha cunhada.

Ele criou um gênero que se chama Conficção: parece confissão, mas é ficção. Ninguém sabe a diferença. Nem ele. É que o leitor quer alguém que viva, não apenas alguém que escreve bem. Bom autor está para ser um gêmeo, um tradutor da emoção. E ele faz isso como ninguém.

Outra coisa que ele faz como ninguém é dar o troco:

- Não era qualquer programa.

Era justamente o Camarote. Sim, aquele que participo todas as semanas fazendo a Crônica Falada. Meu sangue cozinhou as hemáceas enquanto engolia a paródia.

O santinho-do-pau-oco sentou no sofá na frente das câmeras e abriu a tramela discursando da importância de reclamar. Justo reclamar! A pior coisa - o modo mais rápido para ficar paralisado diante das coisas e mentindo que está fazendo algo a respeito. Um dos meus pontos chaves.

Foi golpe baixo e não parou por ali: saiu incrementando e disse que o amor é um pouco doença, que excesso de saúde adoece. E as pessoas no estúdio meneando a cabeça, rindo, achando bonito aquele monte de barbaridade. Ninguém nem imaginava que estava participando de um complô. Foram aliciados como todo o público que viu e que se sentiu legítimo na preguiça de melhorar a própria vida.

- Ui, que ódio de vingança velada!

Convenhamos: não quer ajudar, não atrapalha. Fiquei doente de raiva, esverdeada. No fim, isso aqui não deixa de ser também um revide. Pelo menos eu chamo de Matando Carpinejar.

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Confira aqui a famigerada entrevista.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Um dia é da caça.

EPITÁFIO

Ó, Fera feroz que feriste meu faro?
Que farei? Que farei?

- Coloca um esparadrapo
e respira pela boca.




Semana da dieta de proteína. O famoso regime do caçador - praticamente só carne. À la Naomi Campbel: no carbs. São os sete dias extraordinários onde me ajoelharia por uma colher de açúcar ou uma gotinha de mel; quando posso comer tudo o que aguentar num rodízio de grelhados e não quero nada com salgado: fico babando com o cheiro das padarias e mataria por um brioche.

Por que eu faço? Porque funciona. Nada melhor que uma semaninha protéica para recuperar os excessos de uma série de comilanças e os dois quilinhos chatos que chegaram de mala e cuia.

Este é o cenário quando convido Bitols para irmos ao churrasquinho. Claro, ele queria ir na boutique de bolos da esquina, só para provocar. Insisti, pedi por favor, tá, vamos lá.

Desde que entrou no carro, o celular não parava de tocar. Primeiro tentou disfarçar, apenas silenciou com o botão de rejeitar. Continuou o assunto, a questão dos croissants e tal. Mas irromperam as guitarras do Cake desde seu aparelhinho e, como num dèjá vu, mecanicamente cancelou a chamada. Outra vez, na sequência, e ele sequer olhou o visor - significando que isso já estava assim antes mesmo de chegar para buscá-lo.

Repetiu-se a insistência telefônica e, bem, perguntei:

- E aí? Que passa?
- Sei lá, um número que não conheço.

- Atende, ué?

- Não, não...

Evasivo, mas compenetrado em diluir a encrenca, continuou:

- Pois então, e quando acaba essa tua diet... – tãna-tãnana-tãna-tãnana-tãna as distorções iniciais de “Opera Singer”, anunciando que a criatura insistia.

- Atende, poxa.

Atendeu. Desligou.

- Ih, mas é a cobrar.

A essa altura você já imagina que eu montava em um porco. Adicione-se a isso o fato de que estava farta de presunto. Putaquepariu, Bitols! Pensei, mas não falei.

Óbvio: uma bruaca ligando a cobrar. Nada melhor para chamar a atenção de um homem que ligar a cobrar. Ou ainda: liga do seu número, o cara ignora. Daí disca de outro telefone, ou de origem bloqueada. Por que diabos ele não põe no silencioso! Pensei, mas não falei. Ai, que ódio!

Chegamos finalmente na casa de espetinhos e o trem desandou a tocar pela enésima. Bufei. Pressionou o verdinho e tava alto o volume do fone:

Tandan-tandadan-tandandan – chamada a cobrar, para aceitá-la continue na linha após a identificação – turuuuuuru...

- Alô! – enfezadíssimo – Quem fala?

- Ahsgdiuhkfjosdilgjldkamg – disse a voz feminina, mas ininteligível.

- Sônia. Quer falar com quem, Sônia? – Ríspido, brutal e sem dar chance de resposta, emendou:

- Olha, isso é um engano, ouviu? Não me ligue nunca mais!

Pois é. O cara da bancada, em frente às brasas, esquentou os olhos e quase explodiu rindo. Bitols, recomposto, sorriu desajeitado e inventou:

- Haha, parece que estou brabo mesmo, né?

- Aham. Ninguém notou nada. Foi super sutil.

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Ouça Opera Singer,
 o ringtone do Bitols

sábado, 8 de janeiro de 2011

Quem me dera ser um peixe.


EPITÁFIO
Último dia de aquário,
Primeiro dia de peixes.


Entrei no banheiro, a porta aberta. Lá estava Bitols, em pé, de frente ao vaso.

- Opa! Tava aberta.

- Tudo bem, terminando aqui.

A cena natural, tranquila. Intimidade tem seus flagrantes.

Seria passageira não fosse o detalhezinho sobre a louça branca. O disco alvejado, o donut das nádegas, o mal-falado suporte de rabo repousava sobre a base.

Claro que em geral nos queixamos de que o esquecem em guarda, feito descolorido sentinela londrino, e, desavisadas, acabamos com a bunda na friaca, gelando as dobras de carne na fina borda da patente. Especialmente na madrugada.

Não era o caso.

Mais de uma vez já tinha me perguntado o que eu fiz para merecer essa maravilha de companheiro que jamais esquece o sanitário careca?

Justo ele que está sempre tonto de pressa e compromissos, abandona o zíper arreganhado, as cuecas ao vento, correndo como lebre da Alice: como é que lembra de garantir meu pedestal?

Ali estava a resposta: ele mijava com o treco abaixado. Não sentado, mas ortostático, feito Fontana di Trevi, mirando no alvo reduzido. E eu duvidando da capacidade da hidra, chamando técnico para revisar a descarga que vazava, mas só de vez em quando. Não se descobria o defeito.

Elementar, minha cara: aqueles pinguinhos não eram água.

Desci o sarrafo em forma de discurso eloquente para demonstrar a gravidade da situação.

Fui-me berrando de dedo em riste e perguntando se não bastavam as danceterias e seus toiletes públicos, para onde marchamos com saltos e plataformas monumentais.

Imagina que o banheiro feminino é mais organizado e sanitizado que o masculino? Nunca! Porque mal sabem vocês, os cabras, que nossos sapatos não apenas elevam os traseiros à lua contrariando a gravidade, mas também são galochas para atravessar o pântano que respira no Water Closet. Eu te explico, já que está com cara de interessado. O habitat natural nasce graças ao efeito borboleta de nosso hábito urinário.

Funciona assim: a primeira moça entra no quadradinho, desveste as calças justas que mal permitem mover as pernas uma vez deprimidas à altura das coxas; ela não se apóia em nenhum lugar com asco da latrina; inicia a descida com o quadril e pára a 45 graus; numa festa, bêbada, a mulher quase faz xixi de pé; e começa a tremer durante o agachamento prolongado; então ela tenta, em vão, jorrar o líquido áureo com algum controle; a seguir, livra-se do papel higiênico porcamente, pois está louca para sair dali. A segunda senhorita, precisará vencer os obstáculos herdados da primeira; à terceira miss caberá a árdua tarefa de desviar dos destroços da segunda e assim por diante. Às três da manhã, tcharans: eis o atoleiro.

Não chega para você que tenhamos a uretra mais curta, a bexiga mais cheia, a insalubridade dos absorventes descartados, os canos entupidos pelos ob’s arremessados, o excesso de líquido que bebemos para diminuir o apetite, as filas intermináveis, os trocadores com bebês e fraldas feito brejos nos shoppings, nos supermercados e até nas igrejas.

Nãããão. Que sorte a minha contar com você para garantir que a saga se perpetue dentro de casa.

Pois foi assim. Jurou que era a única vez, era inédito. Foi apelar ao filho, pediu confirmação do Vicente que saiu dizendo que ele faz isso só umas cinco a cada dez vezes.

Ok. No Vicente eu acredito. Afogo só metade. 50%. É justo.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar.



EPITÁFIO
O amor é um crime 
que nunca fica prescrito*.

*@carpinejar


Eu acredito em amor defeituoso, corcunda de Notre-Dame, cheio de calabouços e górgonas, além das esmeraldas; de estrada tortuosa, de vexames e chuva de granizo. Amor de verdade, pra mim, tem que ter geografia completa, cartografia generosa e acidentes de percurso. O modo como percorremos é que nos define.

Mulher perdoa, mas não esquece. Homem esquece antes mesmo de ser perdoado. Acho que querem nos influenciar.

Mulher tem dessas coisas. Luta como louca pra deixar a lembrança afogada no calendário; amordaça a raiva daquilo que ele disse pra seguir adiante; parafusa o caixão prendendo o zumbi. Mas o fundo é falso e se remexe. O que não mata, depois enche o saco.

Já o homem, sem nenhum esforço, sem uma gotinha de suor, apressa a amnésia. Não gosta, apaga. Simples assim.

Gorda auto-indulgência que eles se oferecem. Pelo menos o Bitols.

Quando começamos a namorar, ele recém estava saindo de casa. Eu caí de paraquedas no meio da confusão mental, em plena epilepsia do divórcio. Meti a colher para segurar sua língua. Ergui meus bálsamos de apaixonada e fui tratando de engolir os achaques, as crises, as maledicências. Haja digestão:

- Foi perereca, rã, salamandra, sapo-boi, sapo verde, marrom, papudo, vermelho, da indonésia.

Fiz de um tudo para ajudar durante a tormenta, crente na bonança. Ele mesmo me alertou que consistia em fase trêmula, exigia cuidados extras, caprichos de convalescente. Prometeu que me levaria no colo quando chegasse minha vez de precisar.

Vantagem das fases críticas é que estaremos mais juntos depois. No amor, as contrariedades viram remuneração. Persistência é a moeda corrente da relação.

Décadas mais tarde, chegamos ao dia de hoje.

Era natal, estávamos no banheiro, eu lá esculpindo o Ho-Ho-Ho na cabeça de Bitols. Zummmmmmm entre os cabelinhos. Daí, o ruído foi ficando bêbado.

- Carregou o barbeador?

- Sim, ontem, toda a tarde.

- Ué? Acho que a bateria está ficando velha...

- Ah, nem diga! Adoro esse aparelho, um dos melhores presentes que me deu. E foi dos primeiros, né?

- Claro! Você dizia que ia fazer a barba na tua ex-casa quando fosse buscar teu filho, que não tinha barbeador em Porto Alegre, que o teu era 220V, que eu não me preocupasse, que o que é que tinha?, você poderia fazer a barba quando fosse lá, que limparia tudo, qual era o problema?

- Imagina. Nunca disse isso.

- Não se lembra?

- Não.

E ele nem lembrava.




* Obrigada Luizão, pela adorável sugestão de morte.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Feliz Aniversário

EPITÁFIO
Amava Wim Wenders e o U2.
Enfim, Tom-Tom.




Aniversário de namoro é comoção. Dá uma ligadura no peito, aquela bobeira por estar junto mais um ano. Chega o dia e, às vezes, a gente só nota quando assina o cheque. E se apercebe sorrindo porque dá tempo de surpreender a pessoa que amamos ainda - e cada vez mais.

Foi bem assim na manhã daquele dia: preenchi a primeira receita e completei a data me dando conta de que era a especial.

Saí no intervalo do meio-dia e preparei presentinhos significativos, cada um com o respectivo bilhetinho.

Não é que estivesse desprevenida – mas é que nossa expectativa de comemorar compreendia uma viagem que se seguiria um par de dias dali, um tipo de lua de mel ou equivalente.

O que me deu foi um ataque de nostalgia, assim, no dia específico em que a gente se conheceu: uma crise romântica. Não quis deixar o calendário à toa. Escrevi uns torpedos melosos, convidando para reencontro no bar em que nos vimos pela primeira vez; coisa rápida. Ele topou e, mais que isso, reservou a mesa em que ficamos, a mesma mesa.

Pensei em ir com a aquela mesma roupa, mas mudei de ideia e me arrumei de arrasar. De arrasar e arrastar – porque coloquei um vestido curto, preto, com fenestras e uma meia arrastão com saltos altíssimos.

Ah, ele adorou. Bitols festeja de me ver com exuberâncias. É meu fã número um. Dá gosto de se por em banquete para ele se fartar. Não economiza o desejo que tem e me honra com olhos de ímã.

Pedimos espumante, uma tacinha, que mal tem, mais não posso, amanhã trabalho cedo.

Beliscamos uma coisinha, fizemos a troca de presentes. Ele, um escândalo, com linduras trazidas de Minas Gerais, roupas deslumbrantes, espetaculares mesmo. Puro luxo.

Bem, vamos acabar cedo, já valeu o momento, tão bonito que a gente voltou aqui hoje, não é mesmo, é sim, adorei os presentes, sabe, enfim, vou ali pagar a conta.

Como Bitols demorasse muito, fui atrás. Aí, como relâmpago dos demônios:

- A avacalhação em massa.

Uma anã frenética loira passou por mim se rindo toda e alcançou, meio que inadvertidamente, um papelote ao Bitols:

- Tá aqui o que você pediu. - disse a miniatura do Atchim.

Bitols, por sua vez, guardou o paraquedas branco de guardanapo no bolso de trás da calça – rápido como quem rouba.

E a micro-pessoa se esvaiu de nós aos trancos em direção ao banheiro, abriu a porta de vai-e-vem rindo alto e sumiu – provavelmente latrina adentro onde deve ter ido se reunir com os seus.

Fiquei eu parada olhando em choque de como-assim-o-que-significa-isso e Bitols, branco das neves, algo como panicando, saiu-se dizendo que não era isso, isso o quê?, o que você está pensando, que a moça pediu pra que eu fosse na mesa delas, que faziam um blog, que queriam que eu escrevesse qualquer coisa, aí eu pedi o contato.

Ahan. Não era uma cantada, imagina!, era uma consultoria literária.

Diante de minha cara de tacho do tipo JUSTO-HOJE, em letras garrafais, ele resolve abrir a chonga e lá estava o endereço, algo equivalente a http://confraria_das_separadas.blogdosinfernos.com.

Não tem saída, não. Só matando.

PS. Gracias, Jacelena Dourado, pela morte sugerida. Tão romântica.

domingo, 31 de outubro de 2010

Mão Santa

EPITÁFIO
 Nunca tomou ácido para viajar,
mas foi bem mais longe.




Tenho amigas que reclamam de seus namorados. Afirmam que são toscos, descuidados, não entendem nada de mulher. Resumindo: uns machões sem tato.

Algumas contam com esmiuçados detalhes os momentos de distração de seus adoráveis patetas. Declaram-se autênticas malamadas, para dizer o mínimo.

Entre os crimes estão: esquecer as datas especiais; não enxergar um corte de cabelo; não presentear; não surpreender; não valorizar um sapato, um vestido novo ou uma produção inteira que passa como pantomima na frente de um cego. É isso: cegos! Surdos! Burros! Essas coisas. Minhas amigas têm suas razões. Imagino a frustração delas e vou já espelhando os olhos.

Eu empatizo com a causa, afinal, tenho pai e irmãos. Mas jamais poderia acusar meu Bitols de qualquer semelhança com esses boçais, com esses brutamontes. Bitols sabe antes de mim se meu esmalte está opaco. Repara cada madeixa em meus cabelos. Domingo retrasado, por exemplo, sacou que eu tinha trocado de xampu pelo reflexo do sol nos fios. É mole? No duro. Bitols conhece como eu escolho a roupa de manhã, descreve com exatidão meus hábitos mais bizarros, como o de empilhar as calças jeans fora da prateleira depois de escolher ou como eu costumo esquecer as portas abertas do armário da cozinha. Percebe se eu emagreci, se fiz peeling, se fiz musculação. Memoriza cada centímetro. Às vezes, é assustador.

Como se não bastasse o status de condição enciclopédica, Bitols também aparece de surpresa, escreve bilhetinhos, presenteia e mima. Ele sempre me leva para jantar, jamais nega gorjeta, é gentil com todos. Valoriza meus amigos e amigas. Quer mais? Aprendeu a gostar da minha cachorra. Até estampou foto da bichinha na contracapa de um livro.

Qual é o meu problema?, você se pergunta. Ela só pode ser louca!, você se espanta:

- Onde se viu colecionar desenhos macabros desta maravilha, desta excentricidade da natureza chamada Bitols?

Eu conto. Você já vai entender.

Certa noite, deitados na cama, naquele blá-blá-blá com chamego, o famoso cuddling da véspera do sono, eu digo a ele o seguinte:

- Bitols, você é um gênio de verdade - num elogio referente a sua literatura.

O fulano me sai com esta:

- Não sou gênio. Eu só tenho um dom com as mulheres.

Sentiu o plural? Pois é. O próprio patife se orgulha porque leva jeito com o sexo oposto. Oposto, aliás, resulta em um termo mal empregado. Neste caso, o mais apropriado seria aliado. Sim, porque Bitols tem sexo aliado, mais que isso: sexo alinhavado com as fêmeas de sua espécie.

E, como não bastasse a autopromoção do dengoso, vem a Revista VIP, renomada publicação machesca dos infernos e, pasme, na mesma semana, intitula o self-se-acha poeta de Sabedor das Mulheres como a Palma da Própria Mão. Oras!

Da notinha essa, sabe como eu fiquei sabendo? Pela caixa de entrada do correio eletrônico, via emailzinho encaminhado pelo próprio Don Juan de Marca Diabo. Eu queria mesmo era capar o safado do jornalista que me aprontou essa “homenagem”.

Tudo bem. Até aí, tudo ainda estava bem.

Mas chegou uma nova mensagem dele: a previsível tentativa de aliviar o sadismo - estratégia aplicada repetidamente pelo moço. Sadismo sim, porque ele sabia muito bem o que fazia quando fofocou sobre a referida coluna da Revista VIP (as in Very Important Putaquelospariu). No corpo do email, vinha todo felizinho num olha-que-linda-você-estava-naquela-roupa! No anexo, as fotos de um lançamento em que participamos.

Aí, sim. Aí, sim, a gente vê que ele é um poeta de mão cheia. Mão cheia na coxa da colega de mesa.

E minha amigas amaldiçoando seus mãos-bobas:

- Fala sério.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Superfantástico (só o Balão Mágico)

EPITÁFIO
Poesia não é truque,
é magia.*

*@Carpinejar



Admirável. Não tem outra palavra pra apreciar a qualidade de ginasta, o preparo físico atlético, a condição hercúlea de Bitols para o trabalho. Poderiam chamar de hiperativo, mas hiperativo é aquele que não consegue completar suas tarefas. Bitols é ultra-ativo. Usa o combustível da ansiedade e cada gota faz mil quilômetros.

O dínamo-humano é capaz de conduzir três palestras no mesmo dia - uma em cada turno, uma em cada município. Adicione a isso: twittar em cada trecho de viagem, escrever uma crônica para o blog e responder espirituosamente quatro entrevistas por email, além da participação ao vivo em alguma rádio. A seguir, na banca, lembra de comprar figurinhas para o ábum do Vicente junto com os jornais do país em que saiu, resolve dilemas amorosos da Mariana via Skype, assina dois contratos, reconhece firma e envia pelo sedex, passa no banco e programa o pagamento de algumas contas. Ainda, calibra os pneus depois de ter mandado lavar o carro. No meio do caminho, compra um cinto pra mim, porque sabia que eu estava precisando.

Isso é a descrição de um dia útil qualquer - o mais intenso que conheço. Não apenas um, mas a sucessão deles encordoados. Que disposição! Bitols nunca está cansado.

Todo super tem sua kriptonita. A única vez que o vi cansar antes de mim, foi na balada. Depois, confidenciou: não tem mais o mesmo pique para a noitada. “Que alívio”, comentei. Achei que jamais achava espaço para exaustão.

Numa dessas, cavocou e criou lugar para um convite especial: foi chamado para turnê no Paraná. Bárbaro: várias cidades em uma semana. Na sexta-feira iríamos nos encontrar em São Paulo para o fim de semana. Dencanso programado? Claro que não: ele dá curso de crônica aos sábados.

O cabra começou por Curitiba. Teria uma mesa redonda coordenada por um compadre nosso.

Maldita a hora em que resolvi fazer piadinha.

Ele, o mediador, me escreveu perguntando algum detalhe. Respondi a questão. Aproveitei pra acrescentar (bem humorada, diga-se de passagem) que usufruísse de Bitols, mas que o devolvesse à remetente. O cara riu (até) e disse que, quanto à capital paranaense, a segurança era garantida. Mas em relação ao oeste, bem, estaria à solta no sertão.

Pulga atrás da orelha é pouco. Ganhei um circo retroauricular.

Durma-se com um barulho desses.

Bitols e eu falamos ao final de cada dia, o que, para nós, significa tarde da noite. Eu, acelerando a agenda para poupar a sexta, acabei extra-ocupada. Ao menos desmaiava na cama, não tinha tempo para imaginar possíveis safadezas bitolinianas.

Não via a hora de chegar o fim de semana e sair com os amigos paulistas e relaxar.

Na terça, ligou de um bar em que estava com colegas; na quarta, de um bar com companheiros; na quinta, de um restaurante antes de irem a um bar.

- Olha, Bitols, você se comporta.
- Imagina, amor, já vou para o hotel.

Chegou o dia e nos encontramos no aeroporto. Bitols estava um pouco pálido. Não tinha nem almoçado, o vivente – julguei que seria fome. Tinha uma gravação marcada onde ficaríamos hospedados, então partimos logo. Comeu rápido em uma padaria, chispou para a cobertura para se encontrar com a equipe de reportagem.

Quando voltou ao quarto, eu já tinha programado tudo: liguei para o pessoal e eles estavam passando pra nos pegar loguinho. Bitols, ainda mais esbranquiçado – agora com certeza - de sono, piscava para disfarçar. Tomou banho.

Descemos ao saguão, já tinha gente esperando. Eu, naquela festa! Bitols, um figurante de Thriller. Entramos no carro. Bitols, mudo, no banco de trás.

- O que houve com ele? – perguntou quem dirigia.
- Uma turnê de palestras – balbulciou o zumbi.

Uhum, palestras. Sei.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Fúria de Titã

EPITÁFIO
"Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram.
Amanhã também te vais".

Disse o corvo:
"Nunca mais"*


A filha mais velha de Bitols mora em Brasília. O filho mais novo, em São Leopoldo. São meio-irmãos que são mais-irmãos. Adoram um tête-à-tête. Têm assuntos fabulosos, piadas, projetos em comum. Mantêm blogs, trocam músicas, enfim, eles se amam.
Resultado: contas astronáuticas de celular.

- Bitols, pelamordedeus, pede pra eles desligarem!
- Mas é o único contato deles! É um crime. Prefiro pagar.
- Mas porque eles não usam o Skype?
- Skype?

E foi assim que instalamos no micro de um e de outro o programa gratuito de vídeo e voz em tempo real. O primeiro domingo aconteceu: quase um milgare. Instalados na cozinha, aproveitamos horas e horas conversando com Mariana. Não só hablando: ela mostrou até a música nova! Vicente apresentou o álbum completo da copa e ela achou que a Coréia fosse o time do Inter. Quanto rir! Os irmãos agora eram mais perto de casa. Cora, a cachorra, também caiu nas graças da câmera.

E mais: o software recriou o ambiente familiar. Passamos a cozinhar com a Mariana em cima da geladeira, a debater em mesa redonda seus casos amorosos, suas questões escolares.

E mais: os avós entraram na ciranda. Carlos Nejar, desde o Rio de Janeiro, tomou café conosco na livraria em Gramado. Interações impossíveis que começaram a fazer parte do dia-a-dia.

E mais: eu e Bitols, que já usávamos Nextel para falar via rádio e estar juntos, ganhamos uma ponte a mais. Que ganho secundário maravilhoso. Bitols, quando viaja, me mostra o quarto do hotel, os presentes que ganhou nas feiras, conta tudo com detalhes, desenhos e gestos. É um teatro de dois, uma alegria de namorar. Às vezes, falamos desde a estrada. Me chama do carro, apresenta o motorista. A imagem e a voz chegam antes. Mostro pequenezas, curtas do youtube, twitters, textos. Trocamos carinhos quase tocados. Já dormi com ele lendo pra mim: cabeça em um travesseiro e a tela no outro. A saudade já é companhia. Jamais interrompemos o assunto nosso.

E mais? Sim, também tem a diversão privê, as piadinhas pornográficas, as promessas para logo mais, o aquecimento de deixar no ponto. Pronto para o abraço. E eu achando o Skype tudo de bom.

Santa ingenuidade, Batman!

Vamos do céu ao inferno em três segundos:

- Triiiiimmmmm, triiiimmmmm... – Faz o micro online.
- Pai, quem é Cristiana?

Na mesa de centro da sala, o Vicente anunciou com seus cílios marotos abanando. Chamando no Skype, umazinha, em pleno gozo de fim de semana. Espio a tela:

- Hum, quantas amigas no Skype, hein, Bitols? Rosana, Sílvia, Márcia, Letícia, Camila...
- É que me adicionaram. Não sei quem são. Achei rude não aceitar. Mas eu nunca atendo! Juro!
- Uhum. Sei.


*Edgar Allan Poe

sábado, 10 de julho de 2010

Descansando em Paz.

Sonhar não custa nada.
E o meu sonho é tão real.

EPITÁFIO

Tomava Rivotril esperando
que o outro dormisse.




(sem scanner aqui na serra,
acabei fotografando a morte)

Com sono, sou irascível. Minha lucidez é delicada. Não sei nem como sobrevivi à residência médica e seus plantões. É um mistério para mim de onde arranjei disposição para anos de noites maldormidas. Fico intratável, pior que qualquer criança. Aliás, gastei a flexibilidade na infância. Não sobrou nada.

Já faz muito que zelo pelo tempo com Morpheus, pela higiene mental de sonhar.

Sonolência, pra mim, pesa mais que a fome no quesito irritação.

Cultivei um berço de dois metros quadrados, meu quarto é quase só cama. Lençois perfumados, fronhas rechonchudas, edredons coloridos, luz amena e suave na cabeceira. Tudo para garantir o pouso do corpo com toda majestade.

Vivia como a Michelle Pfeifer na cena de abertura de “Chéri”:

- Nada como uma cama toda só para a gente!

Aí chegou o Bitols.

Primeiro que o sono pra ele é rodapé da lista: o último que começa e o primeiro que termina. Pra ele, cinco horinhas tá mais que bom. Compreendo e admiro a fibra, achava inclusive superlindo que ele fizesse campanhas pra que eu o esperasse até a última gota da noite. Tive que ajudá-lo a entender que eu precisava mais de descanso que ele, que não era indiferença, que dependia do hábito das oito horas e patati-patatá. Ele se dobrou no romance e aceitou que eu fosse primeiro pra cama.

Ufa.

Depois veio a questão do café. Bitols era capaz de beber negrume em forma de tintura de café, um lodo espesso de cafeína, manhã, tarde e noite. Conclusão: agitação física, tremores e fasciculações musculares durante a madrugada (ui, que ódio! Chutinhos no meio do Lago dos Cisnes da minha cabeça). Recomecei a sabatina, agora com o tema anti-café depois das 22h. O moço se debateu, mas aderiu.

Ufa.

Depois veio a questão sonora. Não que eu não estivesse habituada desde a infância com meu pai serrador de troncos que fazia a casa tremer; estava. Mas é que o Bitols só ronca quando tem asma. Não é que eu quisesse um atleta do espirômetro, mas ele fumava muito antes de dormir. E ignorava a existência da bombinha, do nebulizador, essas coisas que reduzem inflamação pulmonar. Resultado: orquestra de barítonos espantadores de guaxinins imaginários na madrugada. Fiz o rancho na farmácia, convenci que era essencial, que baixa de oxigênio mata neurônios, ou seja, a cada noite com hipóxia ele ficava mais burro, etc. Resmungou, mas passou a praticar.

Ufa.

Depois veio a questão das declarações românticas na madrugada. Descobri que quando durmo viro o Shrek. Ele me abraçava de madrugada:

- Branquinha, eu te amo tanto!

- Tá bem. Me deixa dormir.

Juro. É verídico. Magoei Bitolinos com meu condicionamento militar, mas era automático! Rebati, argumentei, consolei. Fiz o que pude. Por fim, pedi pra que não esperasse comportamento polido. Dormindo, sou um ogro. Sinto muito. É questão de vida ou morte. Compreendeu.

Ufa.

Depois veio a questão do acordamento por qualquer motivo. Por exemplo, no avião. Adoro dormir em viagens. Desde pequena, no banco de trás do monza do pai, nos ônibus, em trem. Qualquer sacolejar me embala. Embarco no avião salivando os sonhos que terei, sempre psicodélicos e aventureiros. Bitols não perde a coca-cola jamais. E achava que eu também não queria desperdiçar o refrigerante ou o prazer do serviço de bordo. Ui, que ódio. No meio do Indiana Jones privê o cara me passa suco de laranja. E o pior: era pura gentileza. Como é difícil entender que sono pra mim é sagrado! Como é que a gente reclama de cavalheirismo? Respirei, baixei o volume da raiva, conversamos, entendeu.

Ufa.

Depois veio a questão da rádio nacional matinal ligada na cabeça dele. Abria os olhos logo cedo e já saía dando notícias altíssimas sobre tudo o que aconteceria no dia. E não é pouco: entrevistas, emails, passagens, homenagens, colunas, matérias, pautas, rádio, tv e jornal, o blog, o consultório poético, o twitter, o Vicente, a Mariana, a mãe, o pai, a ex, a outra ex, o salário, o curso de rock, o amigo, a amiga, o almoço. Eu não consigo com tanta alegria. Eu me afogava na excitação. Era o naufrágio do dia em cinco minutos. Dias e dias de desentendimentos matinais. De ogro passei a anão: virei o Zangado. Ganhei má fama de mal-humorada. Mas ele mesmo diagnosticou o descompasso. Reduziu a marcha. Agora levanta, sai de perto e telefona para alguém.

Ufa.

E agora o Bitols me deu folga e foi ao Rio de Janeiro.

Ufa?

Quem diz que eu conseguia dormir?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Porque até o Polanski encarou o presídio (mas fez um Escritor Fantasma).

EPITÁFIO
Matou o namorado
e foi ao cinema.




Toda última segunda-feira do mês, fazemos o Cineterapia. Fico sempre nervosa. É uma delícia, mas eu experimento o pânico das mãos molhadas e da boca seca.

O Bitols sempre ajuda. Faz a assessoria de imprensa, põe no twitter dele e ainda se presta a ser bilheteiro.

A cada um, ele sorri, faz uma piada do momento e se despede solene:

-Boa noite, boa sessão.

É divertido, logo, alivia a tensão. Correção: aliviava.

No último Cineterapia, eu, ansiosa como de costume. O Bitols, brincando como de costume.

Cheguei a ver de relance: uma morena no celular. Sim, chamou a atenção porque ficou de lado todo o tempo em que estivemos ali entregando os folders e as entradas como se esperasse alguém. E botava o celular na orelha. E bufava. E abria de novo o telefone. E bufava.

Fui revisar as poltronas para o debate dentro da sala. Quase todos já tinham tomado seus lugares. Ia no caminho de volta para o saguão, quando meu irmão me interpelou:

- Ele não fez nada que eu vi.

Parecia anúncio de desgraça: um tom algo sóbrio, o olhar certeiro, conheço meu mano. Pisei no tablado e dei de cara com a Bruaca de quatro patas em cima do Bitols. Celular na mão abaixada, encostadinha no caixote da bilheteria. Bitols de cenho franzido, encolhido, constrangido.
Ela tinha atacado, a Espertinha da Estrela.

Eu fui até lá, fiz a volta, pus a mão na nuca dele e ela, nada. Fez de conta que não me viu e continuou: que ia ao lançamento no Rio, que era su-ú-per-amiga da Ana (sim, a “Ana” é Ana Carolina, A Cantora) e que iari-iari-iari-iari. E eu parada feito um dois de paus.

Ui, que ódio!

Tive que sair dali e ir fazer a abertura no microfone. Tremendo de braba. Não posso negar que o nervosismo sumiu. Terminei a abertura e voltei.

Ela ainda estava lá! Cê acredita? Continuava miando que isso e aquilo.

- E aí? Vamos?

Me dirigi ao bilheteiro dos infernos.

- Vamos!

Ele respondeu saltando e recolhendo as coisas, igual criança saindo do castigo. E a Bruaca falou:

- Ai, acho que minha irmã não vem mesmo!

Ahan, irmã. Ainda largou essa. Cê acredita?

Entramos todos.

Depois do debate, eu me encaminhei tranquila para um jantar redentor.

Na calçada, adivinhe?

Cê acredita?

A Bruaca esperava na saída e ainda foi iari-iari-iari até o estacionamento, o carro dela veio antes e era três, não, cinco vezes o meu. E com bancos de couro. Vou te dizer: o terror.
Mais magra que eu, muuuuito mais rica que eu e amiga da Ana Carolina?

Ui, que ódio!

Fiquei em dúvida entre demitir e matar, mas achei que matar dava mais bilheteria.

PS: tá se perguntando o que o Bitols fez pra merecer um tiro? Vai ler o Canalha!; depois volta aqui e diz se não me dá razão.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Homem Perdigueiro

EPITÁFIO
Imperava sobre os sentidos.



Toda a vida tratei de ser mulher independente, moderna, destemida.

Em casa, o pai oferecia espaço na cozinha e na área de serviço; eu exigia aulas de espanhol. A mãe me inscrevia para cursos de modelo e manequim; eu queria dirigir motos, ter carrinhos com controle remoto, sair em viagens com a escola, jogar basquetebol. Eu venho de uma casa machista, onde valia mais o “o”. As calças eram do homem.

Minha alternativa foi querer ser melhor que ELES no campo inimigo, assim quem sabe, passaria a valer alguma coisa. Psicanalistas chamam de inveja do pênis. A mim pouco me toca o nome que dão, foi a melhor coisa que pude fazer.

Depois da análise e da vida, nada disso importava mais, queria mesmo era ser feliz no amor.

Trabalhei muito o ciúme: treinei os modos com ele. Tornei-me educada, polida, fina, quando enciumada. Não acho que tenho o direito de espremer a vítima com minhas suspeitas. Aguento no osso.

Eu me disciplinei a não telefonar perseguindo, a não mexer em gavetas, emails e carteira alheias, a não exigir que me ligue, que me escreva, que me dê atenção. Sempre fui de deixar quieto. Óbvio que falhava de vez em quando, mas tentava meu melhor. Aprendi a cuidar do que precisava. Se o outro compunha comigo era lucro.

Nunca acreditei em rédea curta.

Eu vinha felizmente arrogante com minha competência em ter e dar liberdade.

Quando comecei a namorar o Bitols, isso mudou. Primeiro, ele veio com uma proposta de sermos dependentes um do outro:

- Quê?

- Claro, olha que lindo se tu me ligasse durante toda a tarde e fosse me contando as tuas coisas. Sem essa de guardar tudo pro jantar! Ainda vou te transformar numa perdigueira.

No início, foi muito estressante. Às três da tarde recebia torpedos enfurecidos cobrando porque é que não tinha dado notícias desde o almoço, afinal, toda a tarde já tinha passado.

Toda a tarde?

- Mas Bitols, eu tava atendendo.

- Não consegue mandar um torpedinho? É assim que tu cuida de mim? Ainda vou te transformar numa perdigueira.

O homem era um vesúvio.

- Esqueceu o celular em casa? O quê?! Mas tu não pensa em mim de manhã? Não pensa que ia ficar sem falar comigo?

- Mas Bitols, eu saí correndo atrasada...

- É assim que cuida do nosso amor? Ainda vou te transformar numa perdigueira.

Tudo para mim era novidade. E eu que me achava na medida certa do equilíbrio? Como admitir minha aspereza e falta de romantismo? Juro que acreditava que indiferença era modernidade. Difícil entender o que ele queria. Foi quando Bitols fez um texto: quero uma mulher perdigueira.

Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada quinze minutos para contar de uma ideia ou de uma nova invenção para salvar as finanças, quero uma mulher que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime. Que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu. Que seja escandalosa na briga e me amaldiçoe se abandoná-la. Que faça trabalhos em terreiro para me assustar e me banhe de noite com o sal grosso de sua nudez. Que feche meu corpo quando sair de casa, que descosture meu corpo quando voltar. Que brigue pelo meu excesso de compromissos, que me fale barbaridades sob pressão e ternuras delicadíssimas ao despertar. Que peça desculpa depois do desespero e me beije chorando.
(...)
Quero uma mulher que esqueça o nome de seu pai e de sua mãe para nascer em meus olhos. Em todo momento. A toda hora. Incansavelmente. E que eu esteja apaixonado para nunca desmerecê-la, que esteja apaixonado para não diminuí-la aos amigos.

Afinal, caiu a ficha. Achei até justo, mas impossível pra mim.

Venho me esforçando para aumentar a superfície de contato ao longo do dia e ele, para diminuir a urgência.

Com o tempo, sabemos mais um do outro. Ficou mais fácil ao perceber que ele não escolhia ansiar tanto; era da natureza dele tanto quanto era da minha a estranheza e a solidão.

Na infância do Bitols, apenas o feminino tinha valor: homem não prestava, homem abandonava, partia sem olhar para trás.

Corremos mundos opostos em direção ao centro. Nos achamos na praça para brincar de gangorra.

De março do ano passado, quando fez a crônica, para junho deste ano, muita coisa mudou. O lançamento do seu novo livro de crônicas, Mulher Perdigueira, está acontecendo.

Essa semana, amigos me disseram que não sabiam que eu era tão ciumenta. Tinham lido crônicas do Fabrício supostamente feitas sobre mim.

- Quem diria, hein? Cínthya, uma mulher perdigueira! Como tu engana bem...

Adianta gritar que "É LITERATURA! Ele inventa coisas!" Adianta?
Uh! Que ódio! Todo mundo pensa que sou EU a mulher perdigueira! Justo eu?
Não posso acusá-lo de não ter me avisado.
Mas posso usar a asma e matar o bastardo sufocado (de tanto amor).


AUTÓGRAFOS DE MULHER PERDIGUEIRA

4/6 (sexta), 19h30 - Rio de Janeiro (RJ)
Debate com a cantora Ana Carolina
Sessão de autógrafos do livro de crônicas
Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 páginas)

Livraria Argumento
(Rua Dias Ferreira, 417)
21 2239-5294
_________________________________
7/6 (segunda), 19h30 - Porto Alegre (RS)

Debate "O AMOR É SIMPLES",
com Martha Medeiros e José Pedro Goulart
Sessão de autógrafos do livro de crônicas
Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 páginas)

Livraria Cultura
Bourbon Shopping Country
(Av. Túlio de Rose, 80 - Loja 302)
51 3028-4033